
O Apple TV+ lança nesta quarta-feira (2) o terceiro episódio de uma deliciosa comédia sobre os bastidores de Hollywood: O Estúdio (The Studio, 2025).
Esta é pelo menos a quinta série recente que retrata as engrenagens da indústria cinematográfica. Disponível na Netflix, Hollywood (2020) acompanha a jornada de um grupo de aspirantes a atores e cineastas nos anos posteriores à Segunda Guerra Mundial. The Offer (2022), no Paramount+, detalha o desenvolvimento e a produção do clássico O Poderoso Chefão (1972). Sugar (2024), também do Apple TV+, tem como protagonista um detetive fã de cinema noir que é contratado por um lendário produtor para sua neta desaparecida. A Franquia (2024), na plataforma Max, tira sarro dos filmes de super-herói.
E todas essas sucederam outros seriados, como o saudoso Action (1999) — alguém tinha de resgatá-lo do limbo digital —, Entourage (2004-2011) e BoJack Horseman (2014-2020), e muitos filmes: de Crepúsculo dos Deuses (1950) a Babilônia (2022), de O Dia do Gafanhoto (1975) a Era uma Vez em... Hollywood (2019), de O Jogador (1992) a O Artista (2011).

Compreende-se, portanto, que O Estúdio possa despertar uma sensação de déjà vu no espectador acostumado a esse subgênero. Mas a série é imperdível se você gosta de olhar o que acontece por trás das câmeras; se você curte testemunhar as desventuras e os infortúnios de diretores, produtores, roteiristas e atores, lidando ora com problemas técnicos, ora com decisões estapafúrdias dos chefões; se você adora participações especiais de estrelas que interpretam a si próprias e se você ri de piadas que fazem referências a clássicos eternos, cineastas amaldiçoados, sucessos de público ou desastres de bilheteria.
Qual é a história de "O Estúdio"?
O Estúdio foi criada por Seth Rogen, Evan Goldberg, Peter Huyck, Alex Gregory e Frida Perez. Rogen e Goldberg são parceiros de longa data — assinaram juntos É o Fim (2013) e A Entrevista (2014), escreveram o roteiro de Superbad: É Hoje (2007) — e também dirigem os 10 episódios da primeira temporada da série.
Indicado ao Emmy e a Globo de Ouro de ator coadjuvante pela minissérie Pam & Tommy (2022), Seth Rogen também encarna o personagem principal. Trata-se de Matt Remick, um produtor que, logo no primeiro capítulo, é alçado ao cargo de chefe do fictício Continental Studios, substituindo a demitida Patty Leigh (Catherine O'Hara, bicampeã do Emmy de melhor atriz em comédia por Schitt's Creek), sua mentora.
Quem anuncia sua promoção é o CEO com cabeleira, bigode e figurino dos anos 1970 divertidamente interpretado por Bryan Cranston, seis vezes ganhador do Emmy de ator dramático por Breaking Bad. O nome do sujeito é uma das tantas citações ouvidas em O Estúdio: também se chama Griffin Mill o protagonista de O Jogador, sátira de Robert Altman sobre um executivo de Hollywood pressionado por fracassos de audiência e por bilhetes com ameaças anônimas.

O diálogo entre Griffin Mill e Matt Remick ilustra a personalidade dos dois personagens e o conflito a ser encarado pelo protagonista. Griffin pergunta a Matt por que ele deveria promovê-lo, mas interrompe a resposta do subordinado para berrar com a secretária, reclamando pelo suco verde que ainda não veio. Depois, diz a Matt que só tem uma restrição quanto a ele:
— Ouvi dizer que você realmente gosta de fazer filmes artísticos e pretensiosos e que você tem obsessão de fazer atores e diretores gostarem de você, em vez de estar obcecado em fazer esse estúdio ganhar o máximo de dinheiro possível.
— Isso não poderia estar mais longe da verdade — retruca Matt. — Eu sou tão voltado para os resultados financeiros quanto qualquer um nesta cidade.
A conversa termina com uma bomba: Matt, que ainda acredita na integridade artística em uma indústria cada vez mais superficial e ancorada em propriedade intelectual (leia-se: franquias, continuações, prólogos etc), é incumbido por Griffin de desenvolver uma superprodução com o Jarrão do Kool Aid, a marca de suco em pó conhecida no Brasil como Ki-Suco.

Começa aí a atrapalhada odisseia de Matt Remick no comando do Continental, uma jornada na qual frequentemente sua dignidade e seu amor pelo cinema vão perder batalhas para sua ambição ou seu instinto de sobrevivência na selva de Los Angeles. Ele tem como um aliado mais ou menos honesto o seu melhor amigo, Sal Saperstein (vivido pelo engraçado Ike Barinholtz). Volta e meia vai bater de frente com a diretora de marketing, Maya (Kathryn Hahn, a Agatha Harkness do Universo Marvel). E a todo instante interage com feras reais da fauna hollywoodiana: de Martin Scorsese a Charlize Theron, de Zac Efron a Olivia Wilde, de Anthony Mackie a Zöe Kravitz, de Ron Howard a Rebecca Hall.
O episódio em plano-sequência
O segundo episódio de O Estúdio é simplesmente sensacional. Matt e Sal vão ao set de um drama romântico dirigido por Sarah Polley e estrelado por Greta Lee — ambas encarnando a si mesmas. O chefe do estúdio quer assistir à complexa filmagem de um plano-sequência que envolve a movimentação da personagem de Lee pelo jardim e pelo interior de uma mansão com piscina.
E todo o episódio, que é cheio de deslocamentos e quiproquós, também foi feito em um único plano-sequência, sem cortes entre as cenas. Não será surpresa se ganhar prêmios de direção, roteiro (repare em como elementos introduzidos com aparente despretensão são retomados comicamente mais adiante), direção de fotografia e até de atriz convidada. Eu votaria em Sarah Polley, só pela piada fulminante que remete a sua carreira como cineasta e a seu ativismo político.
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