
O ator Val Kilmer, que morreu nesta terça-feira (1º), ao 65 anos, vítima de pneumonia, relembrou sua trajetória atribulada no documentário Val (2021). O filme tem bastidores da vida profissional e da vida íntima, porque o astro de The Doors (1991) e de Batman Eternamente (1995) gostava de registrar momentos em vídeo — incluindo os tristes. Disponível no Amazon Prime Video, o título dirigido por Ting Poo e Leo Scott traz uma surpresa atrás da outra.
A primeira surpresa está ligada à cena de abertura, uma gravação em VHS dos bastidores de Top Gun: Ases Indomáveis (1986). Nela, Kilmer e outros integrantes do elenco, como Rick Rossovich, brincam que precisam de mais bebida, mais tabaco, mais mulheres e menos Tom Cruise no set.
Ao longo do documentário, o ator que encarnou o arrogante Iceman, rival do mocinho Maverick, faz revelações sobre esse filme do qual nem queria participar, mas que acabou lhe trazendo enorme popularidade. Kilmer voltaria a interpretar o personagem em Top Gun: Maverick (2022), que arrecadou US$ 1,48 bilhão nas bilheterias e recebeu seis indicações ao Oscar: melhor filme, roteiro adaptado, edição, som (a única estatueta conquistada), efeitos visuais e canção (Hold my Hand, por Lady Gaga).

A segunda surpresa é descobrir que a voz a narrar as memórias do ator nascido em Los Angeles e criado bem perto de Hollywood não é de Val, mas de Jack, hoje com 29 anos, filho de Kilmer com a atriz inglesa Joanne Whalley.
Casados em 1988, eles tiveram a primeira filha, Mercedes, em 1991 e se divorciaram em 1996. O ator recebeu o diagnóstico de câncer na garganta em 2014. Passou por quimioterapia, radioterapia e, então, pela traqueostomia, que, como ele conta no documentário, o obrigava a escolher entre respirar, comer e falar.

A terceira surpresa é a forma como Val Kilmer lidava com esse drama e outras adversidades e o tom que adotou para abordá-los.
Val tem um protagonista hollywoodiano, mas não é um filme hollywoodiano: sua história não é de superação, mas de adaptação. Há um misto de melancolia e otimismo, uma alternância entre o olhar racional da maturidade e uma alegria pueril que o ator soube preservar (vide seu próprio figurino, que alguém definiu como uma espécie de "Justin Bieber de meia-idade").
Daí que o documentário pode se permitir passagens como aquela em que dois astros contemporâneos de Kilmer, nos tempos de juventude, baixam as calças e mostram a bunda para a câmera do colega. Ou aquela em que, já quase um sessentão, Val, antes de um funeral, diverte-se atirando com uma pistola de brinquedo contra Joanne e os filhos.

A quarta surpresa é que, embora seja francamente unilateral, Val expõe as fragilidades de seu personagem.
Não sabemos, por exemplo, o que Joanne tem a dizer sobre a separação do casal. Nem o que pensam diretores sobre a fama de "difícil" adquirida por Val Kilmer (Joel Schumacher chegou a chamá-lo de "irracional, infantil, rude, despropositado" em um artigo para a revista Entertainment Weekly). Mas o documentário acompanha Kilmer em uma convenção dedicada à cultura pop, para onde foi convidado por conta de ter estrelado Batman Eternamente, e em um evento para fãs de faroeste, onde é exibido em um telão ao ar livre Tombstone (1993), no qual interpretou Doc Holliday, o grande amigo do xerife Wyatt Earp.
Na convenção, presenciamos o contraste entre o herói da tela e o homem derrubado da vida real: o ator passa mal e precisa interromper a sessão de autógrafos. No evento para fãs, Kilmer reconhece que está vivendo do seu passado, não do seu presente. Mas não deixa de retribuir e de se sentir energizado pelo carinho da audiência.

A quinta surpresa demandou uma pesquisa na internet: ainda que tenha feito vários papéis marcantes, como os de Tombstone, Fogo Contra Fogo (1995) e Beijos e Tiros (2005), Val Kilmer nunca concorreu ao Oscar. Nem mesmo pelo Jim Morrison que encarnou com tamanha devoção em The Doors.
A sexta surpresa antecede o capítulo focado em The Doors.
Apesar de ter sido o mais jovem aluno aceito na prestigiada escola de interpretação Juilliard, em Nova York, Kilmer sempre soube que não era um Marlon Brando. Apaixonado por atuar, pelo "momento onde você termina e o personagem começa", como diz no documentário, ele se empenhava mesmo em comédias do tipo besteirol, como Top Secret! (1984), sua estreia cinematográfica, e empreendia esforços para ser dirigido pelos grandes cineastas.

Val revela os testes de vídeo que o ator preparou pensando em viver o protagonista de um dos principais filmes de Martin Scorsese e em aparecer em um dos derradeiros títulos de Stanley Kubrick. Eis um astro que vibrava quando podia orbitar um sol do tamanho do próprio Brando — mesmo que em um desastre anunciado como A Ilha do Dr. Moreau (1996) — ou de Robert De Niro e Al Pacino, em Fogo Contra Fogo.
Mas eis também um astro que precisava de espaço para gravitar. Por isso que, contrariando qualquer manual do sucesso em Hollywood, Val Kilmer desistiu de vestir por uma segunda vez o uniforme do Batman, assumido por George Clooney em Batman & Robin (1997). Kilmer reclamou tanto do traje em si, que limitava seus movimentos e sua audição, quanto da liberdade que Jim Carrey e Tommy Lee Jones tiveram para desenvolver os vilões Charada e Duas-Caras.
A sétima surpresa remete ao início do documentário: é comovente quando, pela combinação das cenas de arquivo com as imagens gravadas para o filme, entendemos a importância dos braceletes e dos colares usados por Val Kilmer.
E há mais surpresas no documentário, dependendo do quanto você conhece da carreira e da vida pessoal do biografado. Há até pegadinhas mórbidas, sem falar naquilo que ficou oculto: não há, por exemplo, comentários sobre o relato de que ele queimou com um cigarro um integrante da equipe de A Ilha do Dr. Moreau, nem sobre seu relacionamento com a atriz Daryl Hannah, entre 2001 e 2002, definido pelo próprio ator, na autobiografia I'm your Huckleberry (2020), como seu último namoro e sua mais dolorosa separação.
Mas chacotas e omissões não deixam de ser indicadores de uma certa coerência. Afinal, representar, fingir, ser outro era a essência de Val Kilmer: "Eu vivi na ilusão quase tanto quanto vivi fora dela".
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