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Ao justificar a escolha de Um Completo Desconhecido (A Complete Unknown, 2024) como o preferido entre os 10 indicados ao prêmio de melhor filme, um anônimo votante do Oscar disse que "não vemos mais obras assim em Hollywood. Os estúdios têm medo delas".
Fora de contexto, parece elogio a uma suposta ousadia formal, estética, temática. Mas talvez seja somente saudosismo. O filme que estreia nesta quinta-feira (20) nos cinemas, impulsionado por oito indicações ao Oscar, é absolutamente convencional no retrato dos primeiros anos de carreira de Bob Dylan, ícone do folk rock e único artista no mundo a ter recebido o prêmio Nobel (de Literatura, concedido em 2016 "por criar dentro da tradição americana um novo modo de expressão poética"), o Pulitzer (um troféu honorário pela contribuição do compositor à música popular e ao impacto de sua obra na cultura dos Estados Unidos, em 2008), o Grammy (de Álbum do Ano, pelos discos The Concert for Bangladesh, junto George Harrison, Ravi Shankar e Eric Clapton, entre outros, em 1973, e Time Out of Mind, em 1998), o Oscar e o Globo de Ouro (ambos pela canção Things Have Changed, da comédia dramática longa Garotos Incríveis, em 2001).
Na 97ª cerimônia de premiação da Academia de Hollywood, marcada para este domingo (2), com transmissão ao vivo pela RBS TV, Um Completo Desconhecido disputa as seguintes categorias: melhor filme, direção (James Mangold), ator (Timothée Chalamet), ator coadjuvante (Edward Norton), atriz coadjuvante (Monica Barbaro), roteiro adaptado (por Mangold e Jay Cocks, a partir do livro Dylan Goes Electric!, do jornalista e historiador Elijah Wald), figurino (Ariane Phillips) e som.
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Trata-se do 13º longa-metragem dirigido por Mangold, que já havia concorrido ao Oscar de roteiro adaptado, como um dos autores do script de Logan (2017), e de melhor filme, como um dos produtores de Ford vs Ferrari (2020). O cineasta já tinha experiência com cinebiografias musicais: é dele Johnny & June (2005), que retrata os altos e baixos do cantor country Johnny Cash e sua conturbada relação com a cantora June Carter.
Como em Johnny & June, em Um Completo Desconhecido Mangold acerta ao concentrar-se em um período da vida do protagonista — vai de 1961 a 1965 —, em vez de tentar abarcar toda sua trajetória, e ao escolher o elenco. Premiado no SAG Awards, do Sindicato dos Atores dos EUA, Timothée Chalamet evita a caricatura ao interpretar Bob Dylan. E consegue expressar diferentes emoções do personagem — desde o artista ávido por reconhecimento à celebridade com dificuldade de lidar com a fama. Entre os coadjuvantes, Edward Norton empresta honra e generosidade a Pete Seeger, Boyd Holbrook contrabandeia sabedoria e coragem por baixo da embriaguez de Johnny Cash, e Monica Barbaro rouba a cena cada vez que aparece na pele de Joan Baez, às vezes transmitindo paixão e combatividade apenas com o olhar.
A exemplo da cinebiografia anterior, o diretor também adota uma narrativa muito clássica e assume uma postura muito discreta no estilo. Não espere a inventividade de Todd Haynes, que em Não Estou Lá (2007) desdobrou a figura mutante e multifacetada de Bob Dylan em sete personagens, vividos por atores como Christian Bale, Heath Ledger e Cate Blanchett. Nem a excitante variação formal empregada por Baz Luhrmann em Elvis (2022), para citar um dos mais recentes filmes sobre astros da música.
Um Completo Desconhecido começa quando Bob Dylan, então com 19 anos, chega de carona a Nova York para visitar seu ídolo, Woody Guthrie (encarnado por Scoot McNairy), que está morrendo lentamente da doença de Huntington. No hospital, Dylan canta e toca Song to Woody, impressionando o melhor amigo do músico moribundo, Pete Seeger, outro nome de ponta do folk. Seeger introduz o jovem Dylan no cenário cultural nova-iorquino, onde ele vai interagir com personagens como a cantora Joan Baez e a artista Sylvie Russo (Elle Fanning), uma versão fictícia de Suze Rotolo, namorada de Bob naqueles tempos (leia mais no Quem é quem em "Um Completo Desconhecido", logo abaixo).
O triângulo amoroso é um dos dois conflitos dramáticos de Um Completo Desconhecido. O outro, que concede perenidade ao filme, é o da busca pela liberdade artística versus as expectativas da indústria e do próprio público. Em uma cena, por exemplo, o protagonista reclama que as pessoas não deixam ele ser quem quer ser, seja lá o que quer ser. Dylan não quer ficar tocando apenas suas músicas populares, não quer ficar preso às tradições: empunha uma guitarra elétrica e acrescenta instrumentos de rock aos arranjos de suas canções, provocando apreensão especialmente no comitê organizador do Newport Folk Festival.
É um atrito que alude ao sentimento de posse que numerosos fãs têm em relação a histórias e personagens — por extensão, a seus autores — e que remete a uma reflexão famosa do escritor Alan Moore: "Não é trabalho de um artista dar ao público o que o público quer. Se o público soubesse o que quer, eles não seriam o público, e sim seriam o artista. É o trabalho de um artista dar ao público o que ele necessita" — o que poderíamos entender como provocação, transformação, evolução.
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Mas James Mangold não se aprofunda em qualquer tipo de debate — prefere o sobrevoo. Manchetes de jornais, noticiários na TV e boletins de rádio ilustram o contexto histórico: a Guerra do Vietnã, o movimento pelos direitos civis da população negra, a crise dos mísseis, em 1962, que quase precipitou um confronto nuclear entre EUA e a então URSS, o assassinato do presidente John F. Kennedy. Bob Dylan soube traduzir o espírito da época em canções de protesto, como Blowin' in the Wind (1962) e The Times They Are a-Changin' (1964), mas o filme nunca se interessa em fazer o protagonista conversar sobre seus temas, em discutir suas letras e o impacto provocado, ou em esmiuçar o processo criativo do compositor.
Como se quisesse apenas dar o que o público quer, Um Completo Desconhecido parece um grandioso show de covers. Durante seus 140 minutos de duração, os próprios atores interpretam cerca de 50 canções — sendo 32 por Chalamet, às vezes em dueto com Norton ou Barbaro. Temos Girl From North Country, Fixin to Die, House of the Rising Sun, All Over You, Blowin' in the Wind, Folsom Prison Blues, Don't Think Twice, It's All Right, The Times They Are A-Changin', Like a Rolling Stone, Subterranean Homesick Blues, Highway 61 Revisited, Mr. Tambourine Man, Farewell Angelina...
Mangold não tem pressa nenhuma em cortar as cenas, que nem sempre servem para realmente manifestar um sentimento ou contribuir para a trama. Mas há exceções memoráveis, é verdade. Uma delas é o dueto de Dylan e Baez em It Ain't Me Babe. Ali, os versos chegam a ser cortantes enquanto Suze, de longe, observa a comunhão de olhares no palco: "Se afaste da minha janela / Vá na velocidade que você escolheu / Eu não sou quem você quer, baby / Eu não sou quem você precisa".
Quem é quem em "Um Completo Desconhecido"
Bob Dylan (Timothée Chalamet)
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Robert Allen Zimmerman, 83 anos, é o único artista na história que recebeu todas essas premiações: o Nobel (de Literatura), o Pulitzer, o Grammy, o Oscar e o Globo de Ouro. Ele despontou no início da década de 1960, dentro do cenário da música folk. Canções como Blowin' in the Wind (1963) e The Times They Are a Changin' (1964) se tornaram hinos dos movimentos pelos direitos civis e de oposição à Guerra do Vietnã.
No filme, Dylan é interpretado por Timothée Chalamet, que esté em sua segunda indicação ao Oscar de melhor ator — competiu antes por Me Chame pelo seu Nome (2017). Por Um Completo Desconhecido, ele venceu o SAG Awards, do Sindicato dos Atores dos EUA, abalando o favoritismo ao Oscar de Adrien Brody, que havia conquistado o Globo de Ouro, o Critics Choice e o Bafta, da Academia Britânica, por O Brutalista.
Woody Guthrie (Scoot McNairy)
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Nascido em 1912 e morto em 1967, autor de This Land Is your Land e Tear the Fascists Down, o cantor e compositor de música folk era idolatrado por Bob Dylan, que, em sua homenagem, fez a canção Song to Woody (1962).
No filme, Woody Guthrie é encarnado por Scoot McNairy, de Sempre em Frente (2021), Canina (2024) e Não Fale o Mal (2024).
Pete Seeger (Edward Norton)
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Compositor de If I Had a Hammer, Seeger (1919-2014) foi um pioneiro da música de protesto contra a guerra e a favor dos direitos civis.
No filme, Pete Seeger é vivido por Edward Norton, que já tinha disputado o Oscar de coadjuvante por As Duas Faces de um Crime (1996) e Birdman (2014), além de ter concorrido a melhor ator por A Outra História Americana (1998).
Joan Baez (Monica Barbaro)
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Nome mítico do folk, Baez, hoje com 84 anos, empregou seu talento no violão e sua voz de soprano para promover causas como justiça social e o fim da Guerra do Vietnã. Entre seus sucessos, estão House of the Rising Sun, Silver Dagger, Love Is Just a Four-Letter Word e Diamonds & Rust.
No filme, quem faz Joan Baez é Monica Barbaro, que disputa pela primeira vez o Oscar. Antes, a atriz foi vista como a Phoenix de Top Gun: Maverick (2022) e como a filha de Arnold Schwarzenegger na série Fubar (2023-).
Johnny Cash (Boyd Holbrook)
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Retratado pelo diretor James Mangold em Johnny & June (2005), o cantor e compositor country chamado pelos fãs de O Homem de Preto não apenas pelo figurino adotado, mas também por suas letras carregadas de tristeza e perturbação moral. Cash (1932-2003) deixou como legado canções como I Walk the Line, Big River e Folsom Prison Blues.
No filme, o papel de Johnny Cash é de Boyd Holbrook, ator coadjuvante de James Mangold em Logan (2017) e Indiana Jones e a Relíquia do Destino (2023).
Sylvie Russo (Elle Fanning)
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Trata-se de uma versão fictícia de Suze Rotolo (1943-2011), artista estadunidense que foi namorada e musa inspiradora de Bob Dylan entre 1961 e 1964. A imagem icônica da capa do disco The Freewheelin Bob Dylan (1963), com o casal de braços dados em um dia de inverno em Nova York, virou um dos símbolos da contracultura.
Sylvie é intepretada por Elle Fanning, a Aurora de Malévola (2014) e Malévola 2 (2019) e a protagonista da série The Great (2020-2023).
Albert Grossman (Dan Fogler)
Empresário e produtor, Grossman (1925-1986) trabalhou com Bob Dylan, Janis Joplin, Peter, Paul and Mary, The Band e Gordon Lightfoot, entre outros.
No filme, Albert Grossman é encarnado por Dan Fogler, que era o Francis Ford Coppola no seriado The Offer (2022) e atuou também na minissérie Eric (2024).
Bobby Neuwirth (Will Harrison)
Compositor e produtor, ficou conhecido por ser o road manager (gerente das turnês) de Bob Dylan e por ser o coautor de Mercedes Benz, imortalizada na voz de Janis Joplin. Morreu em 2022, aos 82 anos.
No filme, quem dá rosto a Bobby Neuwirth é Will Harrison, ator das minisséries Daisy Jones & The Six (2023) e Último Ato (2024).
Alan Lomax (Norbert Leo Butz)
Foi um dos grandes guardiões do folk, produzindo discos, shows e programas de rádio. Em Um Completo Desconhecido, Lomax (1915-2002) aparece como um ferrenho opositor das inovações de Bob Dylan, que queria usar guitarra elétrica e outros instrumentos no Festival de Newport, em 1965.
No filme, quem faz Alan Lomax é Norbert Leo Butz, o Paddy Chayefsky da minissérie Fosse/Verdon (2019).
Jesse Moffette (Big Bill Morganfield)
É outro personagem fictício, um cantor e guitarrista de blues vindo do Mississippi que, como convidado do programa de TV apresentado por Pete Seeger, acaba sendo acompanhado por Bob Dylan em uma empolgante jam.
Jesse é vivido por Big Bill Morganfield, que é músico e filho do icônico blueseiro Muddy Waters (1913-1983).
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