
Em cartaz a partir desta quinta-feira (3) nos cinemas, Presença (Presence, 2024) é um dos 10 filmes que Steven Soderbergh, 62 anos, lançou desde 2017, quando desistiu de uma anunciada aposentadoria.
Aliás, ao voltar, o cineasta estadunidense assumiu um ritmo de trabalho tão ou mais intenso do que na época de seus títulos mais famosos — Sexo, Mentiras e Videotape (1989) ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes; Traffic (2000) valeu o Oscar de melhor direção, categoria na qual ele competiu contra si mesmo, com Erin Brockovich (2000); e Onze Homens e um Segredo (2001) deu início a uma trilogia bastante popular.
Escrito por David Koepp, parceiro de Soderbergh em Kimi: Alguém Está Escutando (2022) e em Código Preto (2025), Presença parte de uma grande ideia para chegar a lugar nenhum. É um terror que jamais assombra, mas que ao final pode enfurecer o espectador.

Presença começa com uma corretora de imóveis (uma ponta minúscula de Julia Fox, atriz de Joias Brutas, dos irmãos Safdie, e Nem um Passo em Falso, do próprio Soderbergh) apresentando um casarão para a família Payne: a mãe, Rebekah (Lucy Liu, a eterna O-Ren Ishii de Kill Bill), o pai, Chris (Chris Sullivan, o Toby Damon da série This Is Us), e os filhos adolescentes, Tyler (Eddy Maday) e Chloe (Callina Liang). A residência, como o nome do filme e a sequência de abertura indicam, tem um morador fantasma.
A grande ideia de Presença é que todas as cenas são mostradas pelo ponto de vista desse ser invisível, em longas sequências contínuas filmadas e editadas pelo próprio Steven Soderbergh sob os habituais pseudônimos de Peter Andrews e Mary Ann Bernard, respectivamente. Esse recurso cria um diferencial — ao mesmo tempo em que reforça o caráter voyeurístico do cinema — e aumenta a tensão, porque potencializa a imprevisibilidade: não temos como antecipar as ações da entidade.
Mas o encanto pela técnica empregada dura pouco. Ou muito: Presença parece ter bem mais do que 85 minutos, porque Soderbergh não tem muito interesse no terror propriamente dito.
O diretor foca mais nas fissuras dentro da família. O casamento dos pais está em crise, e um dos motivos é que a mãe valoriza mais o filho, um campeão de natação, e praticamente ignora a filha, que ainda está de luto pela morte da sua melhor amiga.

Esse drama familiar não tem nada de muito novo, e o filme se perde de vez quando, enfim, decide investir no perigo. Para piorar, Presença recorre a uma solução que, simultaneamente, desrespeita demais a lógica narrativa e é muito batida. Ainda que o roteiro salpique algumas pistas, o final parece uma aposta desesperada em um plot twist caça-cliques. Pode pesquisar na internet: você vai encontrar uma enorme quantidade de matérias do tipo "final explicado".
Veja meu comentário em vídeo:
É assinante mas ainda não recebe a minha carta semanal exclusiva? Clique AQUI e se inscreva na minha newsletter.
Já conhece o canal da coluna no WhatsApp? Clique aqui: gzh.rs/CanalTiciano