
Um “sextou” especial ocorre neste 28 de fevereiro: é a saída para o Carnaval. Coincidência ou não, é também o Dia da Ressaca. Até que a Quarta-Feira de Cinzas chegue, muitos irão se queixar de dor de cabeça, náusea, sensibilidade à luz, sede além do normal e dor no corpo. Os sintomas, típicos do consumo exagerado de álcool, têm relação com a forma como a bebida é metabolizada no organismo e podem ser minimizados.
A ressaca é um conjunto de sintomas que surge com o exagero no consumo de álcool. Em média, é sentida 10 horas após a ingestão. Conforme explica Antonio B. Lopes, gastroenterologista, chefe da Unidade de Endoscopia Digestiva do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), ocorre quando índice de álcool no sangue já caiu:
— Já não é mais nem detectado, a quantidade de álcool já é desprezível.
Tobias Skrebsky de Almeida, endocrinologista do Hospital Moinhos de Vento, explica que não há uma quantidade limite contra a ressaca para a população em geral, isso depende de cada pessoa e, também de como ocorrerá a ingestão:
— Um dia é uma festa, em outro uma confraternização que tenha refeição, e isso já pode modificar os sintomas. Então, o contexto no qual acontece a ingesta pode determinar o quão sintomática vai ser a ressaca.
O processo de metabolização é uma das funções cumpridas pelo fígado. Quando sobrecarregado pelo grande consumo de álcool, conforme explica a nutricionista clínica e professora do curso de Nutrição da Universidade Feevale Cláudia Denicol Winter, o órgão fica sem energia para cumprir outras tarefas, entre elas colaborar na digestão:
— O corpo fica muito comprometido e acaba gerando consequências, que vai ser a ressaca.
Para os profissionais da saúde, não beber é sempre a melhor indicação. Mas, sobretudo em um período no qual poucos resistem àquela cerveja ou caipirinha, moderação é a palavra chave para reduzir o impacto no corpo.
Para além do mal-estar pontual, o gastroenterologista do HCPA alerta para o conjunto de abusos do álcool ao longo do tempo. O consumo social exagerado - mais de três doses de álcool por dia - causa danos cumulativos com efeito a longo prazo. Os excessos pontuais pioram o quadro.
É indicado evitar esse consumo exagerado num momento específico, mas também aquele consumo social diário
ANTONIO B. LOPES
Gastroenterologista, chefe da Unidade de Endoscopia Digestiva do Hospital de Clínicas de Porto Alegre
Como fugir da ressaca
Não faltam “receitas” para fugir da ressaca. Nem todas funcionam, dizem os especialistas. Uma boa estratégia é tornar mais lenta a absorção do álcool pelo organismo. É quando a alimentação ajuda.
— O alimento vai reduzir a velocidade de absorção do álcool. Então, dá tempo do fígado ir metabolizando com calma. E aí o efeito é menor — diz Cláudia.

A água também faz grande diferença. Primeiro porque dilui o álcool, permitindo que o fígado o metabolize com menos desgaste. Além disso, o consumo de bebida alcoólica exige aumentar a hidratação. Quanto mais se bebe álcool, mais se urina.
— A desidratação também é responsável por vários sintomas da ressaca. Então água antes, durante e depois de beber álcool é muito importante justamente para atenuar esse aumento da liberação de água que a gente tem pela urina — diz Almeida.
Além de atenção à hidratação e alimentação, Lopes complementa citando a relação do privação de sono com a ressaca:
— Pode estar também no cerne dos sintomas do dia seguinte. Porque a gente tem sintomas neuropsiquiátricos da ressaca, da pessoa ficar com dificuldade de concentração, mais cansada. Esses podem estar associados à própria privação de sono.
Diferenças entre as bebidas
Cada bebida tem o seu teor alcoólico e, por tanto, um impacto diferente. Mas não é apenas isso que conta se o objetivo for fugir da ressaca. O médico do Hospital Moinhos de Vento explica que bebidas com coloração mais escura – como o vinho e algumas cervejas – ou com misturas de vários elementos podem ter substâncias não relacionadas ao álcool com potencial de piorar a ressaca.
— Bebidas mais claras e com menos quantidades de ingredientes como vodka e gin, por exemplo, teoricamente, têm poucas substâncias adicionais que possam potencializar a ressaca — detalha Almeida.
Evitar a mistura, mas aumentar a quantidade não é boa ideia. A intensidade da ressaca se dará pela soma do álcool consumido. O mito de que a mistura piora os sintomas pode estar relacionado à perda de controle sob o quanto já se bebeu.
Resistência à bebida
As pessoas têm resistências diferentes à bebida alcoólica. O hábito de beber, ao longo da vida, também pode gerar tolerância aos efeitos do álcool. Sem o costume, mesmo com uma baixa quantidade de álcool, se sentirá os seus efeitos mais rápido. Já entre os que bebem com frequência, é preciso considerar características particulares. Alguns terão maior resistência, outros nunca se adaptarão ao álcool.
— Entre 5% e 10% das pessoas não vão ter ressaca. São mais resistentes aos efeitos e isso é uma questão genética — diz Antonio B. Lopes.
Em termos gerais, pela composição corporal uma mulher sentirá mais os efeitos do consumo de álcool do que um homem e por isso se indica que elas bebam menos. Podem ocorrer casos, porém, em que isso se inverte, por questões individuais.
Cura da ressaca?
Alguns remédios prometem minimizar a ressaca. Nas fórmulas eles trazem elementos que podem ajudar a prevenir alguns dos principais sintomas, mas não são uma solução completa contra o mal-estar pós bebedeira.
São paliativos que vão amenizar os sintomas. Nenhuma medicação ou suplemento tem comprovação de que vá reduzir a ressaca
TOBIAS SKREBSKY DE ALMEIDA
Endocrinologista do Hospital Moinhos de Vento
Receitas caseiras também não operarão milagres. O que ajuda a limitar os danos e acelerar a recuperação é aumentar a hidratação e ter uma alimentação adequada.
— (O pensamento) "vou tomar um suco detox pra me detoxificar" é mentira. Tu tem que preservar o teu órgão. Se a pessoa vai beber mesmo, então que coma sempre alguma coisa e beba muita água — finaliza Cláudia, lembrando que refrigerante e energético não cumprem a mesma função.