Estava almoçando com amigos neste final de semana — todos, como eu, estão na faixa dos 40 e 50 anos. Um dos temas da conversa era, obviamente, o choque geracional no mercado de trabalho, ou seja, como anda difícil trabalhar com alguns millenials (a galera nascida entre 1980 e 2000) e Zs (nascidos depois de 2000), muitos agora atuando como estagiários, trainees e temporários.
Esse assunto dos conflitos entre gerações é inesgotável, e não é de hoje. A cada sucessão que acontece no meio profissional, existe toda uma fase complicada de convivência, de treinamento e de supervisão para que a passagem de bastão seja concluída com sucesso. Hoje parece haver um consenso entre nós, “mais velhos”, de que é frustrante lidar com parte dessa galera jovem (e os millenials já não são mais nem tão jovens assim) que acha que sabe tudo, que não precisa aprender nada, que tem tolerância zero com frustração, que detesta ser contrariada e que toma um simples questionamento ou crítica como se fosse um ataque pessoal.
Mas talvez a melhor descrição do comportamento dos jovens tenha surgido de um comentário de um dos meus amigos: “Parece que essa geração dos millenials e dos mais novinhos insiste em teimar no raso”. E é basicamente isto mesmo: existe uma preguiça, certa ignorância ou uma recusa generalizada em aprofundar qualquer tema. Conduzem qualquer conversa ou interação muito no rasinho da piscina profunda que é se tornar adulto com responsabilidades, atitudes e postura de adulto.
Sendo assim, para tentarem parecer relevantes e importantes, se apegam a questões irrelevantes e desimportantes e lhe dão uma dimensão exagerada e problematizada, se recusando a “serem contrariados” numa arrogância desproporcional à sua falta de experiência de vida e conhecimento de mundo.
Segue um exemplo de teimosia no raso: um desses jovens tirou uma foto na escada rolante de uma estação de metrô em São Paulo meio querendo ridicularizar na legenda “kkkk, sério?” as pessoas por estarem enfileiradas do lado direito, deixando o lado esquerdo livre. Para piorar, uma outra jovem problematizadora comentou o seguinte: “A escada rolante foi criada em 1893 pra pessoa subir PARADA. Só em São Paulo as pessoas ansiosas e egoístas acham que deve se formar uma fila na direita e subir andando pela esquerda. Meu anjo, se tu quer subir andando, existe a escada normal.”
Algo banal como usar uma escada rolante virou palco de um debate acalorado e totalmente raso e desimportante em rede social. Não adiantou vários membros da Geração X tentarem explicar que não era ridículo, nem tinha a ver com “ansiedade e egoísmo”, mas com uma convenção social que existe há anos na Europa e no Japão de permitir uma passagem livre para quem — seja lá por qual razão — está com mais pressa do que os demais.
Vários millenials e Zs continuaram insistindo que isso era “coisa de paulista” e “de gente ansiosa” e outras gororobas, pura teimosia rasa de quem só sabe brigar com a realidade dos fatos. Insuportáveis.