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A Sessão Vitrine Petrobras é um projeto da distribuidora Vitrine Filmes, com patrocínio cultural da Petrobras, que exibe produções brasileiras em salas de cinema comerciais com ingressos a preços reduzidos. Podem ser títulos inéditos ou cópias restauradas de obras que se tornaram clássicas.
Na quarta-feira (26), uma entrevista coletiva realizada no Espaço Petrobras de Cinema, em São Paulo, apresentou a primeira parte da programação que marca os 15 anos do projeto criado por Silvia Cruz, sócia-fundadora da Vitrine Filmes. Os filmes selecionados serão levados a mais de 30 cidades do país. Cada lançamento é acompanhado por um videocast, chamado A Dobra, que reúne um integrante da equipe e um convidado especial.
Haverá três filmes gaúchos, com datas ainda não divulgadas. Um é inédito no Brasil: Ato Noturno (2025), terceiro longa-metragem da dupla porto-alegrense Filipe Matzenbacher e Marcio Reolon — e o terceiro a competir no Festival de Berlim, depois de Beira-Mar (2015) e Tinta Bruta (2018), que recebeu o prêmio Teddy, que é destinado ao melhor filme com temática LGBTQIA+.
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Ambientado em Porto Alegre, Ato Noturno é definido como um suspense erótico. A trama acompanha um ator, Matias (papel de Gabriel Faryas), e um político, Rafael (Cirillo Luna), que vivem um caso em sigilo. Juntos, descobrem ter fetiche por sexo em lugares públicos.
— O Filipe e o Marcio seguem falando de identidade, desejo, performance, mas Ato Noturno é um filme ousado, um pulo na carreira dos diretores. Já foi vendido para 10 países, como Alemanha, Canadá, França e Taiwan — comentou Paola Wink, uma das produtoras do longa, no Espaço Petrobras de Cinema. — E a Porto Alegre que a gente vê é diferente daquela vista em Tinta Bruta, que era mais melancólica. Agora, é uma cidade pulsante.
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Os outros dois títulos do RS estão ligados ao trabalho de restauração e digitalização, que já possibilitou o relançamento nos cinemas de A Hora da Estrela (1985), de Suzana Amaral, e Durval Discos (2002), de Anna Muylaert. A Sessão Vitrine Petrobras vai apresentar novas cópias de Ilha das Flores (1989) e Saneamento Básico, o Filme (2007), ambos assinados por Jorge Furtado.
— Ilha das Flores é aquele filme que vocês viram na aula de Biologia — brincou o cineasta gaúcho. — E Saneamento é uma declaração de amor ao fazer cinema e ao cinema brasileiro.
Premiado no Festival de Berlim, Ilha das Flores foi eleito pela crítica europeia, durante o Festival de Clermont-Ferrand (na França) de 1995, como um dos cem mais importantes curtas-metragens do século 20. O filme usa a trajetória de um simples tomate para explicar a lógica do sistema capitalista e dimensionar o tamanho da desigualdade social no Brasil. Nesse título, Furtado depurou o estilo de hipertexto que se tornaria uma assinatura.
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Estrelado por Fernanda Torres, Wagner Moura, Paulo José, Camila Pitanga, Lázaro Ramos e Bruno Garcia, Saneamento Básico, o Filme é uma comédia que se passa na fictícia Vila Cristal, uma pequena comunidade de descendentes de italianos na Serra que sofre sem o tratamento do esgoto. A cidade não tem dinheiro para resolver o problema, mas daí surge a ideia de aproveitar uma verba federal concedida para uma produção cinematográfica de ficção: os moradores vão construir uma fossa enquanto fazem um filme sobre a própria obra.
A apresentação no evento da Sessão Vitrine Petrobras capitalizou a presença, no elenco, de Fernanda Torres, que neste domingo (2) concorre ao Oscar de melhor atriz por Ainda Estou Aqui (2024), de Walter Salles. E fechou o clipe com uma piada sensacional do personagem de Wagner Moura:
— Espero que depois desse filme ninguém mais fique na fossa.
Os outros filmes da Sessão Vitrine Petrobras
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A edição de 2025 da Sessão Vitrine Petrobras começou no final de janeiro, com Kasa Branca, dirigido por Luciano Vidigal. Conta a história de um adolescente negro da periferia da Chatuba, no município de Mesquita (RJ), e o amor dele pela avó, diagnosticada com Alzheimer. Ganhou quatro prêmios no Festival do Rio: melhor diretor, ator coadjuvante (Diego Francisco), fotografia (Arthur Sherman) e música (Guga Bruno e Fernando Aranha).
A próxima estreia, em 13 de março, é O Melhor Amigo, rodado na praia de Canoa Quebrada, no Ceará, por Allan Deberton, o diretor do premiado Pacarrete (2019). Exibida para a imprensa, trata-se de uma comédia romântica musical sobre o jovem Lucas (Vinicius Teixeira), que, frustrado com as exageradas declarações de amor do seu namorado, o gordinho Martin (Léo Bahia), decide viajar sozinho ao litoral cearense, onde acaba reencontrando uma antiga paixão de faculdade: o marombado Felipe (Gabriel Fuentes).
O filme procura celebrar a estética dos anos 1990 e apela para a nostalgia da década de 1980. Além de escalar Gretchen para uma participação especial, faz o elenco reinterpretar, no canto e na dança, sucessos radiofônicos como Amante Profissional, Escrito nas Estrelas, Perigo e Mais uma de Amor (Geme Geme). Vou ser sincero: achei os personagens infantilizados ou estereotipados, não dei risada nenhuma e, mesmo entendendo a "proposta" dos números musicais, creio que ficaram muito aquém do potencial. Faltou visceralidade (as canções nunca parecem vir da boca dos atores), faltou abraçar mais o kitsch, faltou criatividade na direção de fotografia, que, como apontou o crítico Bruno Carmelo no site Meio Amargo, é muito frontal, sem explorar ângulos, pontos de vista ou profundidades.
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Os outros dois lançamentos anunciados no evento de quarta-feira são A Natureza das Coisas Invisíveis, que participou do Festival de Berlim de 2025 na mostra Generation Kplus, dedicada ao universo infantojuvenil, e Dormir de Olhos Abertos, que ganhou o prêmio da Federação Internacional de Críticos de Cinema (Fipresci) na mostra Encontros da edição 2024 da Berlinale.
A Natureza das Coisas Invisíveis é o primeiro longa-metragem da diretor Rafaela Camelo, coautora, com Emanuel Lavor, do curta As Miçangas (2023). A trama foi filmada em Brasília, onde duas meninas se conhecem no hospital onde a mãe de uma trabalha e a avó da outra está internada.
Dormir de Olhos Abertos é uma coprodução entre Brasil, Argentina, Alemanha e Taiwan, entendo entre seus produtores o casal Kleber Mendonça Filho e Emilie Lesclaux. Dirigido pela alemã Nele Wohlatz, de O Futuro Perfeito (2016), e realizado em Recife, o longa acompanha a jovem taiwanesa Kai, que chega a uma cidade costeira do Brasil para passar as férias e precisa lidar com uma série de encontros e desencontros.
Quem observou os dados sobre os diretores, os personagens e os cenários deve ter percebido que os sete filmes já revelados da Sessão Vitrine Petrobras representam cinco Estados de quatro regiões (Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Ceará, Distrito Federal e Pernambuco) e trazem mulheres, negros e homossexuais atrás e/ou à frente das câmeras. A curadora Talita Arruda comentou sobre a descentralização e a regionalização:
— É uma responsabilidade do nosso projeto estarmos atentos às questões de gênero, raça, território. Mas é um recorte que não consegue dar conta, e ainda bem, de toda a pluralidade que existe no Brasil.
Já Jorge Furtado trouxe números para ilustrar a importância de um projeto que oferta cinema nacional com ingressos acessíveis:
— Oitenta por cento dos filmes brasileiros não fazem 10 mil espectadores. Noventa por cento não fazem 100 mil.
*O colunista viajou a São Paulo a convite da Sessão Vitrine Petrobras
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