Fez bem o governador Eduardo Leite ao, neste momento, desistir do processo de aquisição de uma aeronave a jato pelo Estado, um dos temas mais comentados pela opinião pública do Estado desde a semana passada. A compra de avião por governos é sempre controversa e normalmente abre margem para versões como a de que o equipamento seria um luxo destinado apenas a garantir maior conforto ao mandatário de plantão em seus deslocamentos e um desperdício de recursos diante de outras prioridades mais urgentes e das limitações do erário.
Mesmo que Leite tenha recuado do plano de adquirir um avião mais moderno, é uma discussão que merece ser retomada
Discussões dessa natureza muitas vezes são contaminadas por argumentos torcidos, tanto por quem é a favor como pelos que se opõem, por convicção ou conveniência política. Mas o debate faz parte do jogo. É sempre saudável e democrático. Atenta aos diferentes pontos de vista e razões, a sociedade faz o seu juízo.
Ao explicar a desistência, o governador queixou-se de “dados contaminados e viciados, tratados por políticos e pela imprensa”. Não é crível que Leite esperasse que a oposição aderisse à ideia da compra sem contestações ou críticas, corretas ou não. E na imprensa viram-se opiniões contrárias, mas também favoráveis à intenção do Piratini. Se o governador estava convicto da necessidade de adquirir a aeronave, deveria ter se esforçado mais em apresentar suas justificativas e convencer os gaúchos da importância do negócio, estimado em cerca de R$ 90 milhões. Ainda mais se é verdade, como reforçou Leite, que o processo de obtenção do equipamento poderia demorar mais do que o período que lhe resta como governador, afastando proveitos pessoais.
Há razões bastante plausíveis e nobres para a aquisição da aeronave, como salvar vidas pela agilidade no transporte de órgãos destinados a transplantes. Segundo o Piratini, o avião é uma demanda que vem especialmente da Secretaria da Saúde e há casos de doações de órgãos frustradas pela impossibilidade de deslocamentos em tempo hábil. Por outro lado, não são descabidas as ponderações de que a origem dos recursos não deveria ser o Funrigs, composto por parcelas da dívida do Estado com a União que deixaram de ser pagas em função da enchente do ano passado. O fundo foi constituído para ser usado “no enfrentamento das consequências sociais, econômicas e ambientais decorrentes dos eventos climáticos” dos dois anos anteriores. O exame sobre a existência de outras prioridades tampouco pode ser interditado.
Mesmo que Leite tenha recuado do plano, é uma discussão que merece ser retomada, ainda que em outro governo, seja qual for a coloração partidária. Surgirão, novamente, posições alimentadas por falácias difundidas por redes sociais, reprovações políticas e apreciações favoráveis e discordantes na imprensa. Mas deve-se crer que a sociedade gaúcha tem condições de conduzir um debate maduro, que restará na vitória dos melhores e mais robustos argumentos e na decisão final do Piratini. É cabível reexaminar, com maior seriedade, se o governo gaúcho precisa de uma aeronave mais moderna, adequada às necessidades da saúde, da segurança ou mesmo para deslocamentos mais ágeis do governante da vez.