A 14ª Bienal do Mercosul, aberta na quinta-feira, chega como um refrigério em meio aos dias conturbados da Capital e do Estado. A megaexposição, que se estende até o dia 1º de junho, oferece uma espécie de respiro por meio da arte à tensão e à correria do cotidiano, ao noticiário pesado e aos esforços de reconstrução de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul após a enchente prestes a completar um ano. O evento, aliás, não pôde ser realizado em 2024 exatamente devido às consequências da cheia histórica. Assim como também teve de ser adiada em 2020, por causa da pandemia.
Nada mais apropriado e tempestivo, portanto, do que prestigiar a Bienal. Pelo deleite pessoal, pelo fortalecimento da Capital como polo cultural e de eventos internacionais e para demonstrar que o reerguimento da cidade e do Estado segue firme em curso, também pela força da arte, sintetizada pelo acervo diverso de obras que materializam as sensações e ideias de seus autores, dos mais variados cantos do mundo.
Se em cada obra há uma reflexão, visitar a 14º Bienal do Mercosul é a chance de se abrir para novas percepções
Após a edição anterior, em 2022, atrair um público de cerca de 860 mil pessoas, a meta da organização é chegar agora a 1 milhão de visitantes ao longo de mais de dois meses de portas abertas. Um dos trunfos para atingir este objetivo ousado é espalhar os espaços que receberão as exposições. Serão 18 locais, não apenas em Porto Alegre, mas desta vez também em Viamão. A entrada é gratuita em todos os ambientes.
A intenção é atrair também quem não é frequentador de eventos do gênero. Para isso, foram escolhidos locais não convencionais frequentados por diferentes públicos, como o POP Center, local de comércio popular da área central da Capital. Sempre é tempo para ser iniciado no mundo da arte ou de ser arrebatado pela mensagem que ela traz, em suas mais diferentes formas. Levá-la a mais lugares oportuniza ampliar o alcance da inspiração que pode causar e incentivar o aparecimento de novos talentos, também pelos contatos que proporciona. O curador da 14ª edição, Raphael Fonseca, cita que diversos nomes locais com obras na exposição deste ano tiveram o primeiro contato com uma exposição de artes visuais em bienais anteriores – um evento, aliás, de dimensões raras no Brasil.
Mas o que melhor sintetiza o sentido de retomada, sem dúvida, é reabertura da Usina do Gasômetro. Um dos cartões-postais da cidade, após sete anos de reformas, reabriu na sexta-feira e será um dos pontos centrais da Bienal do Mercosul. O prédio histórico estava fechado desde novembro de 2017. Uma boa pedida é visitar o evento e, na mesma oportunidade, matar a saudade da usina e apreciar um belo pôr do sol típico do outono à beira do Guaíba. O Farol Santander tradicional é outro ambiente tradicional que reabre após ficar de portas cerradas desde a cheia de maio.
A edição deste ano tem como tema “Estalo” e reúne obras de 77 criadores de diversos países do mundo. Dois terços dos artistas são internacionais. Treze são gaúchos. Se em cada obra há uma reflexão, visitar a 14º Bienal do Mercosul, ainda que em apenas um ou alguns de seus espaços, é a chance de se abrir para múltiplas novas percepções, ou a estalos, como sugere a ideia que permeia a megaexposição.