
Uma nova tendência entre os jovens vem preocupando psicólogos e especialistas em saúde mental: “floodlighting”, uma espécie de estratégia para tentar acelerar a intimidade nos relacionamentos. Depois do “gaslighting” e do “ghosting”, esse é mais um termo que viralizou nas redes sociais entre jovens da geração Z – os nascidos entre 1995 e 2010.
Do inglês, “floodlighting” refere-se a “iluminação” e “holofotes”. O termo foi cunhado pela professora da Universidade de Houston Brené Brown. Ela estuda sobre relações afetivas e defende que a vulnerabilidade não deve ser encarada como sinal de fraqueza, mas como elo para garantir relacionamentos mais autênticos.
Ela utiliza a expressão “floodlighting” referindo-se a algo negativo, à superexposição dos sentimentos, que é diferente de ser vulnerável, explica a psicóloga clínica Laís Ribeiro:
Essa superexposição acontece quando a gente bombardeia uma pessoa que a gente ainda está conhecendo, compartilhando muito das nossas intimidades.
LAÍS RIBEIRO
Psicóloga
— Essa superexposição acontece quando a gente bombardeia uma pessoa que a gente ainda está conhecendo, compartilhando muito das nossas intimidades. No livro A Coragem de Ser Imperfeito, a autora diz que o floodlighting pode estar até mesmo relacionado a uma carência afetiva, uma necessidade de chamar atenção, uma forma de mascarar a vulnerabilidade real, de fato — afirma.
Recentemente, o termo virou trend no TikTok, popularizado por jovens que prometem dicas milagrosas para ter relacionamentos bem-sucedidos. Ao buscar a expressão nas redes sociais, Instagram e TikTok, são encontradas milhares de publicações sobre, principalmente de norte-americanos.
O método consiste em uma forma indireta de uma das partes para tentar acelerar a conexão no relacionamento. Ou seja, logo no primeiro encontro ou diálogo, propositalmente, a pessoa compartilha histórias pessoais, como traumas de infância, experiências em relacionamentos anteriores ou questões de saúde mental.
Para além de uma tentativa de ganhar a confiança do outro e criar um laço verdadeiro, a prática funciona como um “teste” para ver se a relação vai dar certo. E isso pode ter riscos, alertam especialistas, principalmente caso aconteça no ambiente digital, antes de conhecer pessoalmente o interlocutor.
— Imagine, de um lado, uma pessoa super aberta, se expondo barbaramente nas redes, e de outro lado uma pessoa mal-intencionada, querendo manipular e se aproveitar da outra — afirma a psicóloga Adriana Wagner, pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) sobre família e relacionamentos.
Ou seja, a pessoa que adotar essa prática pode ficar mais vulnerável aos perigos das redes sociais. Adriana também destaca que, quando se trata de relacionamentos afetivos, essa “catalogação” que vem ocorrendo não faz sentido, porque as relações são plurais e não funcionam dessa forma.
— Quando criamos essas terminologias, perdemos a idiossincrasia. Toda generalização peca por deixar de olhar com uma percepção mais apurada o contexto de cada sujeito envolvido — explica.
Prática "tóxica"
O “floodlighting” vem dividindo opiniões nas redes sociais. De um lado, muitos defendem a prática e dão dicas de como agir dessa maneira. De outro, psicólogos classificam a estratégia como algo “tóxico”, que pode afastar o parceiro, em vez de aproximar.
Isso porque a pessoa pode se sentir sobrecarregada com tantos sentimentos e histórias pessoais logo de cara, e pode acabar se distanciando, em vez de corresponder da mesma forma. Ou seja, cria-se uma dinâmica desequilibrada no casal, o que pode magoar ambas as partes.
A intimidade não é uma estratégia. Ela é reflexo de toda uma construção que exige, também, autenticidade.
LAÍS RIBEIRO
Psicóloga
Além disso, pode resultar em uma falsa sensação de intimidade, uma vez que a confiança é construída aos poucos nas relações, e não de maneira imediata. Isso pode fazer com que o relacionamento pareça mais íntimo do que é, gerando uma relação superficial.
De acordo com Laís Ribeiro, não faz sentido tentar acelerar a intimidade. Trata-se de algo que é construído ao longo do tempo, e exige respeitar o próprio tempo e o tempo do outro.
— Quando a gente divide os sentimentos com alguém, a gente precisa de confiança e de limites. A gente precisa entender o nosso limite e o limite do outro. E a intimidade não é uma estratégia. Ela é reflexo de toda uma construção que exige, também, autenticidade — destaca a psicóloga.
Ao mesmo tempo, a pessoa que se abre cria expectativas e pode se frustrar, caso o outro não corresponda. Laís destaca que é importante entender o que está no cerne dessa necessidade de se expor emocionalmente dessa forma. Por trás disso, pode haver uma busca por validação, por exemplo, ou outras questões psíquicas mais complexas.