A escalada da guerra comercial desencadeada pelo tarifaço promovido pelo presidente dos EUA, Donald Trump, põe a economia global na rota de uma crise cuja gravidade está distante de ser bem compreendida e dimensionada. São poucas as certezas. Uma delas é a de que, em conflitos do gênero, não há ganhadores, embora possam existir países que saiam menos machucados da contenda. Outra é a de que a ordem internacional está sendo redesenhada.
Diante da postura protecionista dos EUA, faria bem o Brasil se fosse na direção contrária, de maior abertura
Diante dos riscos à frente, mas também da dificuldade de prever desdobramentos, os mercados acionários derretem pelo mundo, o petróleo despenca e o dólar tem oscilações bruscas para cima e para baixo. No radar está a possibilidade de uma combinação não usual de inflação pressionada junto a uma recessão. Após Trump anunciar a taxação de importações de 185 nações ou territórios, a China, segunda maior economia do planeta, retaliou e impôs tarifas de 34% a todos os bens norte-americanos. A resposta agrava a instabilidade e os temores de aprofundamento dos efeitos deletérios da guerra comercial, como a paralisação de investimentos produtivos, a interrupção de cadeias, com reflexos nos custos, e um freio brusco na economia global.
O Brasil ficou na lista dos menos atingidos, com uma taxa de 10%. Imediatamente surgiram estimativas de que o país poderia acabar beneficiado, abocanhando parte do mercado norte-americano hoje ocupado por nações que terão tarifas bem maiores. Até pode ser, mas ao mesmo tempo existe a possibilidade – com precedentes – de o excedente de produção de grandes exportadores da Ásia ser desovado em outros mercados. O Brasil, pelo porte, tende a ser um destino preferencial. Paira uma ameaça, portanto, sobre setores industriais do país.
Resta ao Brasil, em um papel a ser protagonizado pela diplomacia profissional, trabalhar para reduzir danos. Convém persistir no caminho da negociação bilateral com a Casa Branca, para reforçar que não passa pelo país o problema do déficit comercial dos EUA. Os norte-americanos são superavitários nas trocas comerciais com o país. O Congresso aprovou durante a semana a chamada Lei da Reciprocidade, que dá instrumentos de retaliação. Seu uso ou qualquer revide aos EUA, no entanto, devem ser muito bem pensados para que, ao fim, não prejudiquem ainda mais a economia nacional. Taxar produtos norte-americanos pode significar importar inflação. São estudadas alternativas na área da propriedade intelectual e de quebra de patentes.
Mas crises também são oportunidades. Diante da postura protecionista e isolacionista dos EUA, faria bem o Brasil se fosse na direção contrária, de maior abertura. Deve-se redobrar a aposta no acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia. Atingido por Trump, o bloco do outro lado do Atlântico tende a ambicionar mais o tratado. Em recente passagem de comitiva governamental brasileira pelo Japão, voltou-se a falar sobre uma aliança entre os sul-americanos e o país asiático. Mais nações passarão a ter novos incentivos para buscar alternativas à nova postura norte-americana. É hora de se esforçar para reduzir estragos imediatos e planejar nossos passos para proveitos futuros.