Em meados do ano passado, enquanto os gaúchos permaneciam atônitos com a magnitude da destruição e das perdas causadas pela enchente sem precedentes de maio, era inimaginável supor que o Rio Grande do Sul encerraria o ano com um crescimento substancial da economia. Pois foi o que aconteceu, contrariando todas as previsões naquele momento, inclusive as de que a tragédia climática afetaria o desempenho esperado para país. O PIB finalizou 2024 com um avanço robusto de 4,9%, informou ontem o Departamento de Economia e Estatística (DEE) do Estado.
Trata-se de um resultado que deve ser exaltado, mas é preciso parcimônia para uma avaliação adequada do que ocorreu
Diante das dificuldades enfrentadas pelo Rio Grande do Sul desde a cheia, trata-se de um resultado que, sem dúvida, deve ser exaltado. Ainda assim, é preciso parcimônia para uma avaliação mais adequada do que ocorreu. É equivocado conjecturar que a alta forte da atividade signifique que todas as perdas econômicas foram recuperadas. O reerguimento do Estado permanece incompleto e ainda vai demorar para ser pleno. A infraestrutura de transporte, por exemplo, está longe de ser considerada totalmente reconstruída.
A apuração do DEE mostra que muito da performance do PIB do Estado veio da agricultura, que se reabilitou após a estiagem severa de 2023. A agropecuária cresceu 35% ante o ano anterior. Quando a enchente chegou, mais de 90% da soja, cultura que gira os maiores montantes de recursos, já estava colhida.
Logo após a cheia, também foram iniciados os esforços de reconstrução, como a da infraestrutura danificada, o que gerou significativa movimentação financeira. Os governos, como estratégia de auxílio à população atingida, fizeram transferências de renda volumosas, permitindo que famílias conseguissem repor bens perdidos. Assim, estimulou-se a demanda por serviços e produtos. Dessa forma, o segmento de serviços, que engloba o comércio – e tem o maior peso no PIB –, cresceu 3,5%. A indústria, por seu turno, recuou 0,4%.
É preciso compreender também os componentes que entram no cálculo do PIB. A perda de uma casa, arrastada pela enchente, não influencia negativamente o indicador. Porém, o que foi comprado e antes produzido para reconstruir, remobiliar e reequipar a residência entra no cálculo e o afeta de forma positiva. Mas a saúde financeira dessa hipotética família, por óbvio, sofreu um abalo forte. Grosso modo, é o que aconteceu no Estado, com a perda de patrimônio, ativos, estradas e pontes.
Incontáveis empresas gaúchas ainda não conseguiram se recuperar do baque. Milhares de famílias permanecem sem moradia definitiva. A recuperação da totalidade das rodovias danificadas não ocorrerá antes de 2026. O Salgado Filho ainda não recobrou o movimento anterior à enchente. A ligação ferroviária com o resto do país segue interrompida. A nova estiagem coloca em dúvida o desempenho do PIB gaúcho em 2025 e piora o quadro de endividamento de produtores já afetados por outras secas. A merecida exaltação do crescimento de 4,9% da atividade em 2024 e de outros indicadores positivos, como a recuperação dos empregos perdidos logo após a cheia e a alta da arrecadação do Estado, não pode encobrir a realidade: as feridas econômicas da enchente e de outros eventos climáticos permanecem abertas.