
O presidente Lula foi direto, como costuma ser: “Ela vai estar onde quiser, vai falar o que quiser, e vai andar para onde quiser.” A frase, dita em defesa das viagens e aparições públicas de sua esposa, talvez diga menos sobre Janja — e mais sobre como o próprio presidente enxerga o poder.
Lula parece ainda confundir liberdade com ausência de limites. Atribui ao cargo um salvo-conduto para misturar o público com o privado. A primeira-dama, segundo ele, “vai continuar fazendo o que gosta”. Pois aí está o ponto.
Fazer o que se gosta é uma ode ao hedonismo. Gostar do que se faz, por outro lado, é o que sustenta a missão — essa palavra que parece antiquada, mas é essencial em tempos de descrença institucional.
Não se trata de fiscalizar o lazer alheio. Mas é curioso que Janja, que se diz engajada nas grandes causas sociais, escolha como destinos Paris — templo do luxo ocidental — e o Catar — onde fez propaganda de um regime que submete mulheres e minorias à constante opressão.
Janja seria mais útil, por exemplo, como voluntária no Sudão ou na Síria, onde mulheres oprimidas sofrem os efeitos de conflitos bem mais letais — mas menos midiáticos — do que o da Faixa de Gaza, onde Janja deu sinais de que apoia, para variar, o lado errado da História.
Janja tem um séquito de 17 assessores. Dezessete. Dá para montar um coral, uma comissão de formatura e ainda sobra gente para segurar o cartaz com a frase: “Ela está apenas fazendo o que gosta.”
Lula parece ainda confundir liberdade com ausência de limites
Quem ocupa o poder não está ali para fazer o que gosta. Está ali para gostar — ou aprender a gostar — do que é necessário fazer. Há uma diferença abissal entre uma coisa e outra.
No fim das contas, Janja é apenas um sintoma. O problema é outro. É a facilidade com que Lula transforma dever de Estado em direito pessoal. E se orgulha disso, como se fosse legítimo, ético e natural. Quando isso acontece, o poder deixa de ser missão — e vira um convite ao prazer. Com a conta, obviamente, paga pelos outros.