A jornalista Carolina Pastl colabora com a colunista Gisele Loeblein, titular deste espaço.

A reincidência de casos de deriva de herbicidas hormonais no Rio Grande do Sul, com prejuízos em culturas como a da uva e da oliveira, entre outras, resgatou o debate sobre o tema. E pautou uma audiência pública realizada nesta quinta-feira (3) na Assembleia Legislativa. De lá, saiu a decisão da criação de um grupo que tratará do problema, avaliando a possibilidade de suspensão do produto no Estado.
O assunto volta a gerar mobilização na esfera política, seis anos depois da regulamentação do uso, em razão da reincidência de prejuízos na Campanha e da judicialização de casos no Estado. Dados da Secretaria da Agricultura indicam que em 2024 houve um aumento dos registros de deriva de herbicidas. Foram 108 laudos positivos para resíduos contra 45 em 2023.
O Instituto Brasileiro de Olivicultura (Ibraoliva), por exemplo, atribui ao produto parte da queda na produção, que, nesta safra, não deve chegar a 300 mil litros de azeite. A Associação Vinhos da Campanha Gaúcha também estima quebra de 50% nos vinhedos da região e atribui esse dano aos casos de deriva.
Aplicado em lavouras de soja para o combate da buva, uma erva daninha de folhas largas, os herbicidas hormonais quando ocorre a deriva, causam perdas em outras culturas. Em videiras e oliveiras, o principal sintoma são galhos e folhas contorcidos. O problema está na possibilidade de morte das plantas e na redução da produtividade.
Formado por entidades representativas do setor produtivo, empresas de produtos químicos, governos e parlamentares, o grupo proposto para debater o tema será uma subcomissão da Comissão da Agricultura, que organizou o evento a pedido do deputado Elton Weber, presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária da Assembleia. A criação, adiantou ele, deve ser feita na semana que vem — quando o nome também deve ser definido. A duração será de 120 dias.
— Houve regramentos, normativas, porém, entendemos que precisamos retomar o assunto, trazer uma nova solução. Milhares de produtores estão sendo prejudicados — justificou o deputado, referindo-se às medidas adotadas para conter o problema.
Entre as sugestões trazidas na audiência estão o uso de agente antideriva, o estabelecimento de uma zona de exclusão da aplicação deste produto, a aprovação de novas tecnologias para aprimorar os herbicidas hormonais hoje no mercado e a instituição de um período de "defeso" de aplicação.
A subcomissão também deve tratar da ampliação da fiscalização pelo governo do Estado. Ricardo Felicetti, diretor do Departamento de Defesa Vegetal da Secretaria Estadual da Agricultura, reconheceu gargalos neste quesito:
— O assunto deriva migrou (do governo do RS) para a esfera judicial. Produtores buscam soluções que o Estado não têm conseguido trazer.
Representante da Federação da Agricultura do Estado (Farsul), Paula Hofmeister pontuou:
— Estamos aqui discutindo e trazendo problemas criados entre produtores rurais. Não podemos fazer com que uma atividade inviabilize as demais.
Anualmente, conforme a pasta da Agricultura, são feitas 3,2 milhões de aplicações de herbicidas (de todos os tipos, não só os hormonais).

Para lembrar o caso
- No final do ano passado, o assunto voltou a ganhar força com o esgotamento de recursos do governo do Estado para análises de deriva de herbicidas hormonais
- Na virada do ano, os recursos voltaram e as análises, também
- Diretor do Departamento de Defesa Vegetal da Secretaria Estadual da Agricultura, Ricardo Felicetti relata um aumento dos casos no último ano
- No início de 2025, o Ministério Público informou que retomaria a pauta da deriva de herbicidas hormonais com o governo do RS