
Os péssimos números das bolsas americanas só têm um rival à altura: o derretimento da cotação do petróleo. Enquanto a Nasdaq, bolsa de tecnologia, tomba 5,5% e os principais índices da bolsa de Nova York desabam perto de 4%, o petróleo despenca 7% na manhã desta quinta-feira (2), o day after do tarifaço de Donald Trump. O tipo brent, referência no mercado, está abaixo de US$ 70.
O cenário dos mercados é compatível com momentos de crise global. Os números representam percepção de que o tarifaço vá provocar desaceleração em todo o planeta, inclusive e de forma mais imediata a dos Estados Unidos. O preço do petróleo é muito sensível a flutuações nas projeções de atividade econômica: se vai diminuir, as compras do combustível fóssil também caem.
Em uma decisão que até o mercado tem dificuldades para interpretar, oito países-membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) vão aumentar sua produção de petróleo, de 135 mil barris por dia previstos antes para 411 mil – três vezes acima do previsto. O usual seria que, diante de um cenário de desaceleração, portanto de menor consumo do produto, a Opep reduzisse a produção.
— Primeiro, recessão e temores sobre a demanda causados pela bazuca tarifária de Trump e, agora, a perspectiva de aumento da oferta da Opep provocaram uma queda de dois dias que anula mais da metade do que havia subido no mês anterior — obserouvo o analista de petróleo do Saxo Bank, Ole Hansen.
Os impactos possíveis
Antes do anúncio oficial, bancos, universidades e órgãos de financiamento de exportações fizeram projeções sobre o impacto do tarifaço de Trump. Cada um adotou um cenário diferente para o aumento das alíquotas.
1. Goldman Sachs, uma das maiores instituições financeiras dos EUA, com aumento de 15 pontos percentuais neste ano: aumento na probabilidade de recessão de 20% para 35%, alta no índice de inflação mais observado pelo Fed de 3,5% (a meta lá é de 2% ao ano).
2. Laboratório de Orçamento da Universidade de Yale, com elevação de 13% na tarifa efetiva dos EUA: aumento de preços entre 1,7% e 2,1%, redução entre 0,6 e 1 ponto percentual no PIB e perdas de US$ 1 mil a US$ 1,3 mil para as famílias americanas.
3. Instituto das Economias em Desenvolvimento, ligado à Organização de Comércio Exterior do Japão (Jetro, na sigla em inglês), com tarifas de 25% dos EUA: queda de 0,6% no Produto Interno Bruto (PIB) mundial em 2027 (perda de US$ 763 bilhões), puxado por tombo de 2,7% no PIB americano de 2027 e forte impacto nos lucros de empresas americanas que dependem de componentes chineses.
4. Universidade Aston (Reino Unido), com tarifas de 25% sobre todas as importações, seguidas de retaliações na mesma alíquota: perda de US$ 1,4 trilhão na economia mundial e drástica elevação de preços nos EUA. Teria efeitos semelhantes ao da guerra comercial de 1930 que aprofundou a Grande Depressão.