Quando visito minhas fotos antigas, além da nostalgia, sinto algo entre o embaraço e o riso. O distanciamento deixa transparente a lente da moda.
Acho graça das minhas roupas, do meu cabelo longo e desgrenhado. Não estou sozinho, ora estou acompanhado por senhoras com capacetes de laquê, ora por amigos com calças boca-de-sino e sapatos plataforma.
A moda nos perpassa sempre, mesmo quem nas fotos não estava na moda, estava fora de moda, como era estar fora de moda naquele tempo. Tentar fugir do espírito do tempo, gravado na vestimenta, é uma causa perdida.
A indústria fashion de hoje nos diz que o último grito em serigote chapeado é usar roupas extra largas (oversized). Vendida como novidade, é mera apropriação de movimentos da cultura urbana marginal, como hip-hop, grunge e skatewear. Eles usavam roupas largas por praticidade, conforto e por recusar a moda corrente.
A reclusão da pandemia incentivou o uso de roupas largas e confortáveis. Nas telas aparecíamos usando algo no espectro entre um abrigo esportivo e uma roupa velha improvisada como pijama. Depois disso, normalizamos certa informalidade. A nova moda revela uma tendência híbrida, tanto de uma escolha pela praticidade, como produto da moda globalizada.
Quando vejo alguém vestindo a nova moda, me parece uma criança que pegou a roupa do pai ou da mãe. A tendência segue o modo bombacha, mas no sentido que toda a roupa é embombachada.
A tal roupa larga tem suas vantagens, se você engordar ninguém nota, se você emagrecer fica ainda mais na moda. Ainda, se precisar usar fraldas, ninguém fica sabendo.
Calça justa, roupas que mostram e valorizam o contorno do corpo, vão ficar para trás. O oversized da Geração Z desafia o padrão do corpo idealizado. Como essas roupas levam o selo da nossa época, obviamente, elas são genderless, isso é, sem gênero.
Com a idade, travamos em um estilo feito de uma colagem do que em algum momento da nossa vida foi moda. Pode acontecer olharmos para o novo com a mesma estranheza que nos vemos nas fotos antigas. Podemos rir da artificialidade das roupas atuais como rimos da artificialidade a que fomos submetidos. Só assim, parcialmente, vencemos a tirania da moda.