
Não deixa de ser uma cruel ironia que os manifestantes de esquerda que bradavam contra a globalização nos anos 1990 tenham encontrado em Donald Trump o algoz da ordem econômica mundial vigente até a quarta-feira passada.
Para lembrar. A globalização é um fenômeno que remonta à era das grandes navegações, mas foi a partir do fim da União Soviética, em 1991, e do surgimento da internet que as economias se tornaram interdependentes, com produções descentralizadas, e aceleraram os acordos de livre-comércio, como a União Europeia, o Mercosul e o Nafta.
Sem norte desde a ruína do Muro de Berlim e a conversão da China em ditadura capitalista, boa parte da esquerda ocidental abraçou o discurso contra a globalização — e, por consequência, contra o capitalismo representado pelo livre trânsito de mercadorias. Os ativistas antiglobalização, recorde-se, clamavam contra multinacionais que plantavam fábricas no mundo subdesenvolvido em busca de reduções de custo e acusavam “Exploração, espoliação!”.
É igualzinho ao que Trump vociferou esta semana no Jardim das Rosas, na Casa Branca, embora, pela visão trumpista, o explorado seja o ingênuo povo dos EUA. Ironia das ironias, Trump levou à cerimônia um sindicalista de Detroit para defender sua muralha contra o livre-comércio. Sinal dos tempos, o ataque a organismos internacionais e blocos econômicos, como a UE, se tornou parte da agenda da extrema direita mundial.
Uma vertente da antiglobalização se instalou em Porto Alegre nos anos 2000, nos Fóruns Sociais Mundiais, com o mote de “um outro mundo é possível”. Os fóruns tinham uma agenda difusa, quando não confusa, mas o que se viu esta semana, duas décadas depois, é que coube a Trump criar um outro mundo na esteira de sua fúria antiglobalista e contra os organismos multilaterais, ainda que com o sinal trocado daquela esquerda.
Um dos seus alvos é o mesmo dos manifestantes de dezembro de 1999, quando milhares de irados esquerdistas promoveram a chamada Guerra de Seattle, onde se realizava a conferência da Organização Mundial do Comércio. A OMC é hoje o altar para se depositar os protestos contra as tarifas nos EUA — o governo Lula, por exemplo, pensa em recorrer ao organismo. Trump, porém, cumpriu o sonho daquela esquerda e esvaziou a influência da OMC, por sinal.
Nos anos 1990, os manifestantes denunciavam a exploração de “povos oprimidos”, em boa medida pelos acordos comerciais que favoreciam as chamadas cadeias integradas da produção. Duas décadas depois de a globalização ter retirado centenas de milhões da mais absoluta miséria, os povos de Índia, Vietnã e Indonésia estão entre os mais atingidos pelas tarifas de Trump. Tudo o que eles desejariam agora era mais globalização e menos ironias históricas.