
A começar pelo apelido, em tudo Kadão era um aumentativo. Seu casamento era uma devoção de 51 anos à Loraine, depois aos dois filhos e, mais recentemente, aos dois netos.
Seu interesse por carros antigos virou paixão que o levou a comprar um Gordini escangalhado e a reformá-lo para poder passear com sua Loraine, como fizera certa feita, já cabelos e barba grisalhas, de Lambreta pela Itália de seus antepassados por parte de mãe.
Com o sangue italiano, defendia com o ardor dos De Leone suas convicções, em especial quando se tratava da área em que se tornou não um grande, mas o maior fotógrafo da imprensa brasileira.
Não é a primeira vez que o defino como o melhor fotojornalista do país. Já o havia feito no início dos anos 2000, em um catálogo para uma exposição fotográfica e repeti-o no título no posfácio que tive a honra de escrever no delicioso livro A Força do Tempo, no qual Kadão mescla sua trajetória pessoal com as vivências e imagens que marcaram sua carreira. Apesar das muitas reprimendas que Kadão me aplicava quando eu o definia assim, mantenho a escrita.
Sou suspeito, reconheço, porque Kadão e eu formamos uma dupla de repórteres que foi da Antártica à Sibéria, de Cuba a Moçambique, do garimpo de Serra Pelada à Brasília do impeachment de Collor. Mas sei do que falo porque convivi de perto com a imensa figura do Kadão, de quem fui parceiro de reportagens, chefe por uns bons 15 anos e finalmente, mas não por último, amigo.
Essa condição era a mais fácil, porque Kadão – fosse num perrengue pesado em um cafundó qualquer do planeta ou numa conversa despretensiosa na redação – era sempre o mesmo: amistoso, divertido, um conversador nato, um sujeito solidário que não te deixaria na mão nunca.
E por que o melhor fotojornalista? Porque Kadão era completo e excelente em tudo.
Autodidata, ele foi um dos precursores da fotografia jornalística que conjuga o flagrante com a estética artística. Sua primeira foto em Zero Hora, ainda quase imberbe, prenunciava o estilo: uma arara pousada em um telhado do zoológico na contraluz. Uma pequena obra de arte, publicada, como não raro ocorre, com o crédito de outro fotógrafo.
Kadão era o melhor também porque ele não só fotografava. Além de escrever bem, como evidenciaria mais tarde em centenas de textos como colunista de ZH, ajudava a localizar fontes, sugeria abordagens, indicava lugares onde devíamos ir.

Como também era editor de fotografia, em campo ele demonstrava o notável discernimento de memorizar que imagem tinha capturado, ou ainda não tinha, para ilustrar cada trecho de uma reportagem em plena gestação ou de obrigar o repórter a correr atrás de uma história para acompanhar uma foto memorável.
Foi assim, por exemplo, na Rússia, onde permanecemos três semanas nos idos do inverno de 1993 para uma reportagem, editada ao longo de uma semana em ZH, sobre o caos político e econômico após o fim da União Soviética. Kadão se angustiava porque, a seu ver, não encontrara ainda uma imagem que sintetizaria, numa foto de capa, o que estávamos testemunhando.
Um dia, ele estacou no meio de uma rua da Moscou coberta de neve. Não entendi na hora, mas ele ficou ali, feito um guepardo à espera da presa. Kadão avistara ao fundo um painel carcomido com a imagem de Lenin na empena de um prédio.
Um bom fotógrafo se contentaria com o registro simbólico do comunismo se despedaçando. Kadão, não. Ficou esperando mais um elemento, até que soldados fardados se agruparam para uma conversa sob o painel. Estava feita a imagem antológica que abriria a série de reportagens.
Como editor-chefe e diretor de Redação de ZH por 15 anos, discuti incontáveis opções de fotos com Kadão, ele sempre vencendo e me convencendo com argumentos irrefutáveis, menos uma vez. Em um dia de setembro de 1999, Kadão entrou na minha sala e depositou sobre a mesa duas imagens de agência internacional. Uma mostrava um aparentemente saudável americano de meia idade, mas fumante inveterado, ao lado da cama do filhinho pequeno. A outra foto, feita três meses depois, mostrava o mesmo filho ao lado de uma cama de hospital, com o pai magérrimo, devorado pelo câncer.
Eram duas imagens chocantes e tocantes. “O que faço com elas?”, perguntou-me Kadão. “Tu, não sei, mas eu acabei de parar de fumar”.
Assim, eu, que tinha um filho de dois anos e fumava duas carteiras por dia, nunca mais pus um cigarro na boca, e cheguei aqui para contar essa história. Obrigado por tudo, Kadão.