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"Você nunca saberá quantas vidas transformou, mas elas saberão" (Autor desconhecido)
Viver muito é a fantasia humana mais antiga. A mitologia grega já se ocupou disso com Tântalo, um arrogante filho de Zeus que depois de várias provocações foi punido pelos deuses com sede e a fome eternas, simbolizando as consequências de desejar algo que não se pode alcançar, entre elas a imortalidade.
O certo é que os homens, mais por méritos próprios do que por ajuda divina, e sem pretender o exagero da imortalidade, passaram a viver muito mais. E a medicina, com os fantásticos avanços tecnológicos, permitiu que os cirurgiões, naturalmente pretensiosos, se tornassem mais ousados sem serem irresponsáveis.
Com a maior adesão à ideia do check-up na velhice, tornou-se frequente a combinação de paciente idoso com lesão tumoral pequena e potencialmente curável.
A novidade foi descobrir que essa situação permitiria rapidamente estabelecer o quanto um determinado idoso estava afetivamente vivo no seio da sua família.
A naturalidade com que uma proposta cirúrgica é aceita traz uma mensagem explícita: ninguém entre os seus aceitaria que aquele avô autônomo, determinado e participativo deixasse de ser operado simplesmente por ser velho, como se a velhice merecesse algum tipo de punição.
Entre esses tipos, entendidos como verdadeiros trunfos familiares, encontram-se os bem-humorados, confirmando que a preservação do humor, especialmente se enriquecida com boa dose de deboche, é uma manifestação indiscutível de saúde mental.
Ele fez uma cara de surpresa e respondeu: 'De morrer, não tenho medo nenhum doutor, mas o que me falta muito é a pressa'
As histórias do Roberval e Romualdo, ambos com mais de 88 anos, além do meu desejo secreto de assumi-los como avós adotivos, ilustram bem esta condição.
O primeiro, muito compenetrado, ouvia a sequência do que iríamos fazer e o quanto contávamos que ele ajudasse. Depois de cada colocação, ele, curiosamente, perguntava a respeito de alguma complicação que tinha ouvido falar.
Depois da terceira intervenção, sempre com nova potencial complicação, não resisti a perguntar se ele tinha muito medo de morrer.
Ele fez uma cara de surpresa e respondeu: "De morrer, não tenho medo nenhum doutor, mas o que me falta muito é a pressa".
E o neto advertiu: "Releve, doutor, ele é assim o tempo todo".
Fiquei em dúvida sobre quem abraçar primeiro: o avô, pelo que era, ou o neto, pela ventura de ter um avô desses à mesa de domingo.
O Romualdo, sedentário, com perda muscular importante, resistia a entrar no programa de reabilitação pré-operatória. E, para isso, eu lhe explicava que o benefício dessa recuperação se estenderia para a vida depois da cirurgia. Porque reforçar a musculatura das coxas e glúteos é muito importante para a preservação do equilíbrio durante a marcha.
E alertei: "Esses velhinhos sem bunda tropeçam muito!".
E ele respondeu: "Pode ser que ajude, mas na minha idade, o senhor já deve ter aprendido, essa parte do corpo tem muito pouca utilidade".
Quando a esposa quis intervir, ele foi mais rápido: "Não vai dizer nada só pra agradar o doutor!".
Saíram do consultório abraçados, rindo muito. A vida deles não dependia de ninguém para ser uma festa.