
"Ser empático é ver o mundo com os olhos do outro, e não ver o nosso mundo refletido nos olhos dele" (Carl Rogers)
Há uma associação quase imediata entre o termo empatia e o exercício da medicina, mas esse sentimento importante é muitas vezes essencial em várias outras profissões onde circulam pessoas carentes de ajuda.
O que certamente varia é o grau de exigência dessa virtude, tornando compreensível que a necessidade de empatia seja proporcional ao medo que temos de perder o que nos é caro.
O médico é testado diariamente quanto a sua qualificação sensitivo-emocional de receber um sofredor, não importa em que grau de sofrimento. Antes de mais nada, deve ser capaz de ouvi-lo e, a partir daí, construir uma narrativa suficientemente sólida para que ele se sinta tratado com objetividade, parceria e confidencialidade, de modo que os seus medos, reais ou imaginários, sejam tratados com igual presteza e cordialidade.
Um advogado, diante de alguém sob ameaça de perda, seja ela patrimonial ou de dignidade, viverá uma situação semelhante e, conscientemente ou não, estará sendo submetido, já na primeira entrevista, a um implacável teste de sensibilidade e delicadeza que o tornará inesquecível, para o bem ou para o mal.
Lembro de um colega idoso que consultou um jovem advogado, chocado que estava porque recebera uma denúncia ridícula, eivada de vigarice e óbvias intenções espúrias. Segundo ele, a primeira frase do bacharel recomendado, querendo pretensamente tranquilizá-lo, foi: "A notícia boa é que esse tipo de crime não dá cadeia!".
Lembro também de um médico oncologista emergente, que recebeu um engenheiro de 35 anos, pai de dois filhos pequenos, trazendo um catatau de exames de imagem, com evidências assustadoras de um tumor maligno de pâncreas. Depois de um cumprimento informal, manteve-se em silêncio durante intermináveis 15 minutos enquanto lia a carta de encaminhamento e revisava os laudos e as respectivas imagens, alternando movimentos enigmáticos da cabeça.
Aprendi a descrer de milagre quando a carência é de sensibilidade
Quando voltou ao planeta, indiferente ao peso daquela terrificante espera, revelou a sua extraordinária capacidade de ser objetivo: "Espero que o senhor tenha um bom plano de saúde, porque posso lhe adiantar que os gastos serão significativos".
Algum otimista poderia argumentar que essas intervenções desastradas foram expressões de afoiteza de dois profissionais jovens, mas, depois de décadas trabalhando com o sofrimento alheio, aprendi a descrer de milagre quando a carência é de sensibilidade.
Quem descobre o insuperável encanto de ajudar o outro incorporará espontaneamente a noção de que se colocar no lugar dele é uma exigência elementar para que essa relação alcance o platô gratificante da fraternidade, que enriquecerá qualquer atividade profissional.
Aceito a responsabilidade de que os veteranos devem transferir aos principiantes as estratégias básicas que tornem mais doces as relações com as pessoas que nos procuram com explícitos pedidos de socorro, mas considero fantasioso que se pretenda agregar sensibilidade a um tosco.
Sempre me pareceu mais razoável aconselhá-los a evitar contato com os sofredores, que certamente não escolheriam alguém que lhes multiplicasse a vulnerabilidade no sofrimento.