
Foi num evento cafona, com bandeiras tremulando como plumas de carnaval e aplausos plastificados, que Donald Trump anunciou sua nova façanha: tarifas para o mundo inteiro. Para nós, aumento de 10% sobre produtos importados do Brasil. O nome do espetáculo foi “Dia da Libertação”. Parece piada, mas não é. E o mundo riu — de nervoso.
A repercussão veio como um vendaval. No Canadá, o primeiro-ministro, Mark Carney, lavou as mãos e o verbo: “acabou”, disse, encerrando de vez a relação estreita com os Estados Unidos. Na Inglaterra, fala-se em guerra comercial, em recessão global. Na Europa, a palavra de ordem é reagir. E aqui no Brasil, a surpresa: esquerda e direita deixaram de lado os memes e os rancores para aprovar um projeto de lei que permite ao país dar o troco. Um raro momento de união cheio de significados.
Mas a união é consequência da junção de gente que não é imune aos fatos. Enquanto o planeta inteiro condenava o gesto americano, dois brasileiros aplaudiram de pé: Jair Bolsonaro e seu filho, o auto-exilado político Eduardo. Sim, eles mesmos. Sem uma gota de constrangimento, endossaram a decisão de outro país de dificultar o acesso do Brasil ao seu terceiro maior mercado importador. Aplaudiram, como se o prejuízo fosse de outro povo. Como se defender Trump fosse mais importante que defender o Brasil.
Veja, caro leitor: só em 2024, o Rio Grande do Sul exportou quase 22 bilhões de dólares. Quase 2 bilhões só para os EUA. Isso não é número de planilha — é soja, carne, suor. É gente plantando, embarcando, vendendo. E agora, pagando a conta de um capricho imperial.
Há inúmeras palavras que descrevem esse tipo de postura, mas nenhuma tão clara quanto traição. Porque torcer contra o próprio país — por ideologia, por servilismo ou por burrice — é trair a pátria. E a pátria, ao contrário do que gritam os desavisados, não é um slogan. A pátria é quem acorda cedo para carregar o Brasil nas costas.
O mais espantoso é que o projeto de resposta aprovado no Congresso foi assinado por Teresa Cristina, ex-ministra da Agricultura do governo Bolsonaro. Ou seja: nem os antigos aliados se fazem de cegos diante da gravidade da situação. Mas há quem prefira tapar os olhos com a bandeira dos Estados Unidos e chamar isso de “patriotismo”.
Torcer contra o próprio país — por ideologia, por servilismo ou por burrice — é trair a pátria.
Tudo isso não é só sobre uma disputa comercial. É sobre identidade. Sobre quem ainda tem coragem de olhar pro Brasil e dizer: “estamos juntos”. A História há de registrar quem lutou de fato pela soberania nacional e quem, feito vira-lata que presta continência para bandeiras de além-mar, abanou o rabo para outro dono.
No fim, é sempre assim: enquanto uns batem palmas, outros seguram o tranco. O mercado sente, o preço sobe, a moeda balança — e quem paga a conta é o povo que trabalha. É esse povo que merece respeito e deferência. Não os parasitas engravatados que só sabem lamber botas alheias em nome de uma falsa grandeza.