Na semana passada, escrevi que todos os dias eu tento trazer uma boa notícia, um lampejo de esperança para os leitores de GZH, mas que o Brasil não me ajuda. Hoje, eu consegui. Não é sempre que começamos a semana com uma notícia boa — e nem precisa ser uma grande notícia, daquelas que ocupam manchetes. Basta que ela seja boa e seja real.
Duas semanas atrás, Jair Bolsonaro reuniu seus fiéis em Copacabana num ato a favor da anistia aos envolvidos no 8 de janeiro. Foi um evento que dividiu o país não entre esquerda e direita, mas entre quem sabe contar gente e quem acredita que 400 mil pessoas cabem numa esquina. Os entusiastas viram multidões épicas, como se a Avenida Atlântica fosse uma passarela de guerra santa.
Neste fim de semana, foi a vez do outro lado. Guilherme Boulos chamou o povo pra dizer “não” à anistia, agora na Avenida Paulista. Deu 5.500 pessoas, segundo o Poder360. Boulos achou que eram 25 mil, provando que a megalomania é democrática.
O curioso é que ambos os lados — os de verde e amarelo e os de vermelho com camiseta do Che Guevara — estão lutando por algo que, no fundo, quase ninguém liga. A anistia virou pauta de vinil: velha, riscada, fora de rotação. Só toca em certos perfis no “X”, em comentários de YouTube, em podcasts de nicho. Nas ruas mesmo, ninguém está falando disso.
E esta é a boa notícia.
Porque enquanto a bolha roda em um looping eterno entre STF, golpe e anistia, o Brasil está nos caixas dos supermercados. Está nas contas que não fecham, nas famílias que começam o mês já pensando em como vão atravessá-lo. Está na carne moída que virou luxo, no aluguel que come metade do salário, na creche que falta, no remédio que encarece.
O que deve ser feito com os envolvidos no 8 de janeiro é o óbvio: julgar cada um de acordo com o que fez. Nem mais — como tem feito o STF sob a batuta de Alexandre de Moraes —, nem menos. Quem invadiu, depredou, urinou ou incendiou, deve ser punido. Não é porque o Judiciário se perdeu em seus próprios arroubos que a lei deixou de valer. E não é porque há quem peça perdão em nome da pátria que a Justiça vai virar programa de auditório.
Essa cruzada pela anistia é um delírio coletivo que une extremos numa guerra que só existe no feed. No Congresso, todos sabem — do PSOL ao PL — que o projeto não anda. Não tem força pra ser pautado, e se for, morre no Senado. Davi Alcolumbre já avisou: vai para a gaveta, sem choro.
Enquanto isso o povo, o povo real, de carne e osso, o povo que vota, está cansado. Não tem ido mais para a rua inflar ego de político malandro. Está aprendendo que domingo é melhor com a família, com churrasco, com sol na pele, com menos grito e mais paz. A polarização está cansando até quem vive dela. Talvez seja esse o começo de uma nova consciência. Ou só cansaço, mesmo.
Seja o que for, a semana começa com alguma esperança.