
Ontem eu escrevi aqui em GZH sobre a diferença de compasso entre os políticos e a sociedade civil. Sobre como as urgências do poder público parecem estar cada vez mais desalinhadas, dia após dia, dos anseios das pessoas normais deste país. O texto era sobre as chuvas no Rio Grande do Sul — falava da falta de infraestrutura, do improviso permanente, do planejamento que nunca chega. Mas a desconexão entre povo e governo não é exclusividade do Rio Grande e nem se evidencia só com as tragédias naturais.
Ela também mora em Brasília. Está no plenário, nas comissões, nos bastidores bem iluminados onde se costura o atraso com linhas de vaidade.
O PL, partido do ex-presidente Jair Bolsonaro, resolveu pressionar o presidente da Câmara, Hugo Motta, para pautar com urgência o projeto que anistia os presos do 8 de janeiro. Noventa e dois deputados entraram em obstrução generalizada: paralisaram votações, travaram comissões, puxaram o freio de mão do Legislativo.
Sim, a obstrução é legítima. Está no regimento interno, é uma ferramenta democrática. Serve para retardar votações de projetos indesejados, renegociar pontos sensíveis dos textos em tramitação e, principalmente, garantir que a minoria tenha voz. Mas como toda ferramenta democrática, também pode ser pervertida.
Usar a obstrução pra forçar o parlamento a votar uma matéria sem consenso dentro da própria Casa é como chutar a bola pra fora de campo só porque o time não está ganhando. Não é estratégia, é birra com crachá. É inverter o papel da minoria e transformar a exceção em chantagem.
Enquanto o PL trava a Câmara, o Senado avança. Aprovou ontem um projeto importante, nascido da bancada do agro, que autoriza o governo federal a reagir às barreiras comerciais impostas por Donald Trump. Um texto com impacto direto na economia e na diplomacia do país. Aprovado a jato na Casa Alta. Agora, precisa passar pela Câmara. Será que vai, já que tem deputado que decidiu que só entra em campo se for pra jogar com regra própria?
Como disse Hugo Motta, ninguém é dono do povo. E não deveria existir esquerda e direita quando a pauta é a defesa do Brasil. Mas parece que, pra alguns, o país é só cenário — e o povo, só plateia. Enquanto isso, o tempo corre. E quem paga a conta da paralisia é sempre quem está do lado de fora do plenário.