
A política brasileira vive um momento de transformação em que as redes sociais deixaram de ser ferramenta de comunicação e passaram a ditar o próprio conteúdo da vida pública. A lógica do engajamento passou a pautar decisões, discursos e conflitos, deslocando a política real para um palco onde a performance vale mais que o resultado.
O Congresso virou um estúdio. Projetos de lei são apresentados com slogans de marketing. Deputados fazem transmissões ao vivo durante sessões, parlamentares encenam indignação calculada para clipes no Instagram. No ano passado, em meio às chuvas no Rio Grande do Sul, vídeos de políticos entregando mantimentos dominaram as redes: a ação humanitária foi sequestrada pela lógica do marketing pessoal.
Essa teatralização afeta a própria governabilidade. O contraditório vira traição, o adversário vira inimigo, a negociação vira fraqueza. O teatro da “birra legislativa” se escancara em episódios como o do Centrão travando o Congresso para pressionar o parlamento a votar a anistia aos condenados do 8 de janeiro — chantagem que se vende como estratégia. Ou então na Comissão de Ética da Câmara, que pretende cassar o deputado Glauber Braga — o que não seria injusto, se o mesmo relator que votou pela cassação dele não tivesse se omitido na hora de decidir sobre o futuro de Chiquinho Brazão, ou se André Janones tivesse sido cassado pela prática de rachadinha que ele próprio admitiu à Justiça recentemente.
Enquanto isso, as discussões que exigem profundidade perdem espaço. São temas difíceis de traduzir em memes e frases de efeito. Ficam de fora da vitrine, ainda que sejam centrais para o país.
É nesse vácuo que se esvazia o espaço público. A intermediação algorítmica da vida pública torna opaca a esfera comum. O cidadão, mantido em bolhas emburrecedoras, recebe apenas verdades selecionadas, reforçadas por uma lógica de guerra cultural permanente. Enquanto isso, pautas espinhosas e urgentes — da regulamentação das big techs à crise nas polícias estaduais — ficam fora do palco, sem dramaturgia suficiente para viralizar. A política vira guerra de narrativas e o parlamento, um feed onde vale mais a briga do que o trabalho.
Não se trata de saudosismo por uma política mais séria — ela talvez nunca tenha existido plenamente aqui no nosso país. Nem de rejeitar a tecnologia ou a comunicação direta. Mas é preciso distinguir a diferença entre comunicação política e populismo midiático. Entre disputar ideias e disputar cliques. Se tudo vira show, o país vira apenas cenário. E ficamos então à mercê de parlapatões como Felipe Neto fazendo piada com um assunto sério como uma pré-candidatura à Presidência da República.
A triste constatação é que, no Brasil, o espetáculo raramente tem terminado em final feliz.