
A política brasileira tem seus momentos de ficção. E ontem vivemos mais um deles.
Felipe Neto, o maior youtuber do país, anunciou que é pré-candidato à Presidência da República. Isso mesmo. O homem que começou reagindo à bala de goma azeda agora quer reagir à inflação, ao Congresso Nacional e, quem sabe, à taxa Selic. Uma guinada que ninguém esperava, nem mesmo o algoritmo.
Por ora, sigo esperando ele aparecer dizendo que era só uma pegadinha de primeiro de abril atrasada. Mas enquanto o desmentido não vem, a gente precisa tratar a coisa com o mínimo de seriedade possível — o que já é muito esforço, convenhamos.
Porque, veja: todo cidadão com mais de 35 anos e um partido para chamar de seu tem, claro, o direito de se candidatar. Mas isso não impede ninguém de se perguntar, com toda a franqueza, se a gente tem mesmo cara de palhaço. Porque, no fim do dia, é isso que sobra: uma sucessão de notícias tão absurdas que transformam o país em circo — com direito a trapalhada, malabarismo retórico e palanque de lona estendida.
Felipe Neto, justiça seja feita, já começou a pegar o jeito. Disse, em fevereiro, que ia se afastar da política, que não ia mais comentar o assunto. Um mês depois, estava lançando pré-candidatura. Vai ver tem vocação. Porque nada grita mais que a pessoa tem o dom para a política do que uma promessa quebrada em tempo recorde.
Ele disse, também, que vai governar com base na lógica, na ciência e no diálogo. O mesmo Felipe Neto que costuma chamar de fascista todo mundo que discorda dele. Se isso for diálogo, é melhor já começar o debate com capacete. E também é bom torcer para ele esquecer aquela opinião de que quem coloca cebola no feijão deveria ser preso. Porque, do jeito que anda o país, não seria surpreendente ver o japonês da Federal batendo na sua porta por causa de um refogado.
Mas, para eventual surpresa do leitor, no fim das contas, eu até gostei do anúncio. Porque talvez Felipe Neto seja mesmo a terceira via. E, honestamente, talvez seja a terceira via que mais representa o Brasil de 2025. Se Lula é o pai dos pobres e Bolsonaro é o pai dos patriotas, Felipe Neto é o quê? O irmão mais novo dos adultos com ansiedade digital? Me representa. Claro.
Segundo ele, sua candidatura surge para "unir o centro". O centro! Felipe Neto se considera de centro. Eu só consigo imaginar que a única comunidade de centro que ele vai conseguir unir é a do centro cirúrgico, com a quantidade de gente tendo parada cardíaca ao ouvir essa frase.
O Brasil não é um algoritmo. E a presidência da República, apesar das aparências, ainda não é o TikTok.
Talvez tudo isso seja só uma encenação. Um teaser. Um trailer de uma série que ninguém pediu. Mas já que não nos dão o respeito, que pelo menos nos deem o riso.
Porque rir, nesse país, ainda é o único jeito de seguir respirando.