
Nenhuma grandeza vem sem ensaio.
O diretor Walter Salles já esteve no Oscar em 1999 com Central do Brasil (duas indicações).
Quis o destino que ele fosse nossa primeira estatueta dourada 26 anos depois com Ainda Estou Aqui, eleito o melhor filme internacional, transformando a premiação do cinema em torcida de Copa do Mundo.
Quis o destino que fosse com a irresistível Fernanda Torres, justamente a filha da protagonista de Central do Brasil, a incomensurável Fernanda Montenegro.
Ninguém dormiu na noite de domingo (2). Todos torciam para o reconhecimento inédito do país. Fogos de artifício espoucaram no céu, gritos de entusiasmo e comemoração surgiram de todas as janelas, de todas as varandas, de todas as portas.
Além de ter faturado cerca de R$ 162 milhões em bilheteria pelo mundo e atingido a marca de 5,2 milhões de espectadores no Brasil, assumindo o posto de 18ª produção brasileira de maior público no cinema nacional, Ainda Estou Aqui cumpriu a proeza de parar o nosso Carnaval.
O Carnaval teve uma trégua. Uma estranha interrupção de alegria por mais alegria com a notícia da vitória.
Não recebemos o Oscar pelas mãos de Fernanda Torres na categoria melhor atriz (Mikey Madison, de Anora, venceu o páreo), mas foi pelo seu sorriso, sua influência e seu carisma que o Oscar acabou sendo trazido na outra categoria. Sua performance serena diante do sofrimento da personagem serviu de fiador do prêmio, o maior cabo eleitoral. Aquele Globo de Ouro que obteve antes desenrolou o tapete vermelho do Dolby Theatre, em Los Angeles, para nossa passagem, e abriu os olhos dos jurados.
Se não fosse por sua atuação desconcertante, jamais chegaríamos tão longe. Se não fosse pelo seu brilhantismo em entrevistas e divulgação, não teríamos superado Emilia Pérez. Fernanda não ganhou o Oscar de melhor atriz para ganharmos o de melhor filme. Emprestou seu prestígio individual para conquistarmos o triunfo coletivo. Trabalhou para a equipe. Fez com que não saíssemos da cerimônia de mãos vazias.
A trama do filme é baseada no livro homônimo do escritor Marcelo Rubens Paiva, que reconstitui a jornada corajosa de sua mãe, Eunice. Ambientado na ditadura militar brasileira, acompanha a luta da matriarca para o regime ditatorial se responsabilizar pela autoria do desaparecimento e morte de seu marido, o engenheiro civil e ex-deputado Rubens Paiva, em 1971, no Rio de Janeiro.
A obra apresenta genealogias e encontros mágicos dentro da narrativa. Como explicar a quintessência dramatúrgica de Fernanda Torres e Fernanda Montenegro, filha e mãe, encarnando Eunice na maturidade e na velhice? Como explicar que conseguiram repetir o mesmo olhar, ou completar o mesmo olhar: Fernanda Torres numa sorveteria, observando ao redor e se lembrando de tudo o que viveu e jamais irá se repetir, e Fernanda Montenegro na cadeira de rodas, já com Alzheimer, observando ao redor e não se lembrando de mais nada?
Em sua estreia no Festival de Veneza, o filme teve 9 minutos e 46 segundos de aplausos de pé. Com o Oscar, a ovação agora vai durar a eternidade.