
Deu o maior bafafá quando eu escrevi “que os pais fiquem atentos, mas tranquilos” sobre a série britânica Adolescência.
Foi só surgir um atentado como o da escola municipal João de Zorzi, de Caxias do Sul — em que três alunos golpearam professora de inglês com faca dentro da sala de aula, na terça-feira (1°) —, que parte dos leitores veio para cima de mim: não era para ficar tranquilo?
Sim, o que os lares precisam é justamente de tranquilidade para estabelecer ordem, saber dizer não, impor limites. O desespero é irmão da ansiedade. A permissividade não educa.
Em primeiro lugar, a série mostra um caso patológico. O protagonista não representa o adolescente médio. É fora da curva da violência.
Temos que parar de demonizar essa fase, como se todo adolescente fosse um criminoso em potencial. Não é porque seu filho está trancado no quarto ou preso no celular que está tramando conspirações e ataques.
Talvez tenhamos que começar a considerar doenças mentais ou transtornos em tenra idade.
Se não acreditarmos no trabalho excelso da psiquiatria, da psicologia e da psicanálise nas observações clínicas, de nada adiantará qualquer esforço contra a truculência juvenil.
Existem as exceções adoecidas. Não significa que todos os jovens estão doentes, ou que todos são extremistas, a um passo da explosão, como o alarmismo apregoa.
Na Inglaterra, cenário de Adolescência, há famosos exemplos de crimes bárbaros cometidos por jovens com menos de 16 anos. Lembro de Jon Venables e Robert Thompson, dupla de Liverpool, ambos com 10 anos, autores do homicídio brutal de James Bulger, de apenas 2 anos.
Ainda que não seja admitido o diagnóstico de psicopatia para crianças e adolescentes, já que não possuem personalidade estável e se encontram em formação, é possível antever “desvio de conduta” e “traços de insensibilidade emocional”, que servem de indicadores precoces de psicopatia na vida adulta.
É o que acontece com o personagem da série, Jamie Miller. É o que se verifica em grande parcela das chacinas e matanças em nossas escolas. Corresponde a aproximadamente 1% da população mundial.
O fundamental é que tanto a família quanto a escola sejam rigorosas na prática da obediência, para detectar sinais de alerta como falta de empatia e de remorso, comportamento agressivo recorrente, frieza emocional, insensibilidade ao sofrimento alheio, mentiras persistentes, manipulação e impulsividade.
Só assim evitaremos tragédias. A partir de ambientes que ensinem bons modos, as aberrações serão mais visíveis e poderão receber tratamento em tempo hábil.
Mas, se a casa e a escola continuarem sendo terra de ninguém — com palavrões, gritos e desdém à autoridade moral —, não conseguiremos identificar os traços psicopáticos iniciais.
Configura-se um terreno fértil para as manifestações de agressividade passarem despercebidas. Na generalização hostil, como localizar o foco?
Sem disciplina, não desfrutamos de condições para combater o triângulo do mal: uso ostensivo de telas, bullying e famílias disfuncionais.
O modelo do nosso ensino está falido, mais preocupado em obter índices do que instruir e corrigir atitudes. O comportamento deveria ser mais importante do que a avaliação de conhecimento, deveria pesar na nota.
Da mesma forma, o professor não é o centro da atenção, desde a desvalorização salarial até a ausência de proteção e de credibilidade. É a ponta mais vulnerável da hierarquia do aprendizado.
A verdade dolorida é uma só: a família desconfia da escola. É sempre culpa da escola, nunca do aluno, nunca da própria família que mima e estraga, que isenta os rebentos das consequências de suas atitudes e jamais os responsabiliza por seus excessos.