
Imagine a preocupação de uma mãe e de um pai esperando por mais de um ano um especialista para atender o filho que tem sintomas de algo que eles não fazem ideia do que seja. Eles só querem um diagnóstico para saber como lidar e tratar. Agora pense na pessoa que precisa de um oftalmologista e vai ter que ficar meses aguardando uma simples consulta. A mulher que notou que tem algo errado no seu corpo, mas não consegue investigar sem o encaminhamento ideal. O idoso com dor constante no quadril. A capital gaúcha tem 200 mil casos como esses, com muitos detalhes e especificidades que não consigo trazer aqui.
A fila do SUS em Porto Alegre, como mostrou a reportagem da Lisielle Zanchettin nesta semana, é de 206.267 consultas. Se fosse uma fila presencial, encheria duas vezes o Beira Rio e mais duas vezes a Arena ao mesmo tempo, mas sem torcedores e sim pessoas sentindo dores e aflições. Como se fosse pouco, ainda há 167 mil exames represados. É como se quase toda a população da cidade de Alvorada saísse de casa e formasse uma fila. Há um temor sempre pairando no ar de que, quando esses pacientes forem enfim chamados, já tenham morrido. Medo que tem fundamento, já que há casos de espera de cinco anos. Cinco anos!
Se a fila fosse física, com as pessoas amontoadas esperando em linha, talvez nos fizesse ficar mais chocados mas, como a gente não vê, ela é abstrata, é distante. A não ser que seja alguém da nossa família ou círculo de amizade sofrendo nessa espera, seguimos a vida normalmente. Sabemos todos que a responsabilidade não é somente do município, mas do estado e do governo federal. Os três precisam atuar juntos e investir para que os pacientes não esperem por meses ou anos um atendimento de 15 minutos.
Não vejo luz no fim desse túnel a curto prazo. Sinto a saúde como um problema sem solução, mesmo estando à beira do colapso. Um emaranhado do qual não conseguimos sair. Uma lama, que prende os pés e não nos deixa caminhar.
O que a população precisa como resposta é quando o tema será tratado com a agilidade que merece. Essas filas são cruéis e expõem uma realidade bem nossa, que precisa ser enfrentada.
No fim das contas, as pessoas só precisam de um prazo mais curto e de um atendimento de qualidade. Parece simples e é um direito básico, mas estamos sempre atolados de problemas e burocracia que nos impedem de resolver. Já ouvi inúmeros candidatos a tudo prometendo “melhorar a saúde”. Assim mesmo, de forma vaga, sem projeto, sem plano, sem prazo. Até lá vamos mofando nas filas, esperando leitos, esperando atendimento, esperando consultas, esperando viver até chegar a nossa vez.