
Você tem uma dúvida sobre como executar uma tarefa ou sobre algum produto, pesquisa no YouTube e, geralmente, lá está a resposta. Assim como os tutoriais e as avaliações, aulas, transmissão de eventos, unboxing, músicas, partidas de e-sports, podcasts e comerciais antigos são uma pequena amostra de um universo de conteúdos variados publicados na plataforma, que completa 20 anos em 2025.
Em 2005, um vídeo gravado em um zoológico daria o pontapé inicial para uma transformação da internet – e da vida das pessoas. Os impactos da plataforma vão desde o surgimento de novos hábitos à integração na cultura, passando por consumo de informação, mercado de trabalho e educação.
O YouTube rapidamente ganhou popularidade, tornando-se um dos sites mais acessados e uma referência para o trabalho com vídeos na internet. No Brasil, a plataforma tem impacto econômico significativo, com uma contribuição do ecossistema criativo de R$ 4,46 bilhões para o PIB em 2023, ajudando a criar 120 mil empregos, segundo estudo da Oxford Economics encomendado pela empresa.
Compreendendo o sucesso
A simplicidade ao fazer upload de vídeos de diferentes formatos e ao assisti-los – apenas acessando um site, sem precisar instalar programas – foi uma das forças transformadoras da plataforma, conforme André Pase, professor de Comunicação Digital da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).
Pase destaca a presença em diferentes dispositivos e a evolução com transparência em questões como a monetização, embora seja complexa.
É uma mídia consolidada para que também a gente busque informação.
GUSTAVO FISCHER
Unisinos
Para Gustavo Fischer, professor do Programa de Pós-Graduação em Design e coordenador do Instituto de Cultura Digital (ICD) da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), o YouTube é um importante reflexo e impulsionador das tendências da internet, incluindo a ascensão dos criadores de conteúdo.
— É uma mídia consolidada para que também a gente busque informação, às vezes, inclusive, checagem de informação, embora também seja um ambiente que tenha de lidar com fake news — pontua.
O surgimento do site é representativo de uma tendência de contribuição do usuário, vinculada à época da chamada Web 2.0, em meados dos anos 2000, aponta Fischer. A aquisição pelo Google, em 2006, foi importante para o crescimento da plataforma, com a integração ao motor de busca.
— Nasce justamente assim, como um dos próprios criadores vai comentar, em uma espécie de tempestade perfeita, na qual a gente tinha um momento das câmeras digitais ainda, as pessoas podendo gravar vídeos já digitalmente, pré-smartphone, e a gente tinha algumas soluções de web muito associadas à ideia da colaboração e da contribuição de conteúdo do usuário — ressalta.
Os especialistas ouvidos por Zero Hora ressaltam a contribuição do YouTube para fortalecer o compartilhamento de conteúdo – com a ressalva, no entanto, para o impulsionamento de grupos ideológicos.
Impactos no comportamento
Ao perguntar a uma criança o que ela deseja ser quando crescer, há grandes chances de ouvir: youtuber. A plataforma se enraizou de tal maneira em nossa cultura e nossos hábitos que deu origem a uma nova profissão.
Esses produtores de conteúdo representaram o impacto de um certo deslocamento da opinião especializada da mídia tradicional para perspectivas mais pessoais e informais, vinculadas à figura de uma pessoa, influenciando comunidades virtuais – os futuros influenciadores, ressalta Fischer. O professor da Unisinos alerta que é preciso cuidado em relação à autoridade dos criadores, sobretudo ao tratar de temas sensíveis como saúde.
A rede social foi uma das primeiras a buscar uma fórmula de como monetizar uma plataforma feita com conteúdo criado por usuário.
Tanto os creators quanto os usuários se transformaram ao longo do tempo: os produtores se profissionalizaram – até mesmo os cenários, que conferiam certa “autoridade”, foram ganhando robustez, destaca Pase –, e alguns passaram por crises de identidade; ao mesmo tempo em que o público cresceu, seus interesses mudaram.
Por outro lado, concomitantemente, a plataforma segue “formando” usuários assíduos à medida que mais crianças consomem conteúdos infantis no site, lembra o professor da PUCRS.
A própria plataforma passou por uma profissionalização, evoluindo de vídeos pessoais para um ambiente com conteúdo profissionalizado, acrescenta Fischer.
— Hoje, um criador de conteúdo já entra diferente. Qual é o microfone, a iluminação? A própria plataforma também já está priorizando essas pessoas, já diz: eu preciso ainda ter algumas pessoas novas entrando aqui para que as pessoas continuem interessadas em criar para o YouTube, porque vai dar pé virar um creator, mas está superprofissional — afirma Pase.
Mudanças no consumo
A maneira como consumimos conteúdos e formatos também mudou. No início do YouTube, os primeiros vídeos publicados eram curtos, devido a limitações de espaço e upload. Com a evolução da plataforma e a melhoria das tecnologias, o site passou a abrigar formatos mais longos – como podcasts.
Agora, porém, parece haver um movimento de retorno, influenciado pelo surgimento e popularização de plataformas como o TikTok, com vídeos curtos – e por um certo esgotamento da atenção e paciência, aponta Pase. Os “cortes” de vídeos mais longos, por exemplo, se alastram pelo site – e o retroalimentam.
Para os pesquisadores, essa dinâmica demonstra a adaptabilidade da plataforma, embora tenha demorado a buscar tendências como as lives. O site também impactou a forma de consumir informação, com reflexos e desafios à educação formal.
— O YouTube integra um painel de soluções que temos nos últimos 20 a 10 anos, dentro do digital, de transformação da nossa forma de trabalhar com a informação — resume Fischer.
Desafio constante
Head de Comunicação e Relações Públicas do YouTube Brasil, Malu Gonçalves destaca que o YouTube acompanhou a evolução da internet. A plataforma se expandiu em termos de conteúdo, com notável crescimento dos podcasts, tornando-se uma das principais para esse formato.
Essa multiplicidade de possibilidades do YouTube, de acompanhar essa jornada de consumo de informação, de entretenimento, de conteúdo, acho que é o ponto que faz com que se mantenha relevante.
MALU GONÇALVES
Head de Comunicação e Relações Públicas do YouTube Brasil
Manter-se relevante é um desafio constante para qualquer plataforma que esteja no universo digital, afirma Malu. Ela atribuiu o sucesso nesse empenho à unicidade do YouTube.
— É uma plataforma que pode ser assistida de diferentes telas, você pode assistir um clipe musical, ou escutar um podcast. Então, essa multiplicidade de possibilidades do YouTube, de acompanhar essa jornada de consumo de informação, de entretenimento, de conteúdo, acho que é o ponto que faz com que se mantenha relevante.
O YouTube se tornou uma plataforma importante para a economia dos criadores de conteúdo – que seguem sendo o foco. Para o futuro, a inteligência artificial é vista como elemento chave, com potencial para auxiliar os criadores na produção e enriquecer a experiência dos usuários.
Em relação à desinformação, a plataforma afirma que adota políticas para o combate às fake news.
A continuidade da plataforma
Ao chegar à marca de duas décadas, o YouTube mostra ao mundo que é um vasto arquivo de vídeos, servindo como um registro dos últimos 20 anos e um repositório para conteúdos de mídias mais antigas, segundo os especialistas. Se, durante seu início, outros adversários foram deixando a disputa, atualmente, a batalha concorrencial é contra o TikTok.
A esta altura, porém, a plataforma já se enraizou na cultura, como um lugar para buscar conteúdo, sustenta Pase. Em sua visão, a simplicidade continua a ser a chave para a sua relevância. Por esses motivos, os especialistas acreditam que o YouTube deve seguir relevante – ainda mais com sua capacidade de formar novas gerações de usuários e criadores, reforça Pase.
— Tem bons indícios de como já está na nossa cultura. Já está impregnado. Já virou botão de controle remoto. Nossa cultura já se apropriou disso — destaca.
Em meio a espaços cada vez menos orgânicos nas redes sociais, Fischer salienta a necessidade de os usuários seguirem demandando um algoritmo democrático, que permita a participação, a visibilidade e a criatividade – garantindo, assim, o poder de experimentação e debate da internet, no qual o YouTube desempenhou um papel importante.