Encontrado em 2014, no município de São João do Polêsine, na região central do Estado, o esqueleto praticamente completo de um Gnathovorax cabreirai, do grupo de dinossauros herrerassaurídeo, foi um achado que trouxe revelações para o mundo da paleontologia. O espécime viveu no período Tríassico, exclusivamente na América do Sul, há cerca de 230 milhões de anos, e é um dos mais antigos predadores de que se tem registro.
Agora, a descoberta é a evidência das mais antigas brigas das feras pré-históricas. A revelação ocorre graças a dedicação do paleontólogo e doutorando do Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade Animal da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) Maurício Garcia. O profissional começou a estudar o espécime gaúcho em 2021, para o seu mestrado, quando notou uma cicatriz no maxilar do fóssil e decidiu aprofundar a pesquisa. Ele queria entender se a marca poderia ser oriunda de uma briga entre os bichos carnívoros.
— Comparamos com várias outras marcas que podem ocorrer nos ossos. Às vezes, na fossilização, mas, também, por carniceiros, que se alimentaram da carcaça depois que o animal morreu. Várias coisas podem acontecer — explica Garcia.
Quando tiveram confiança de que se tratava de uma patologia, por estar cicatrizada, sendo indício de ferimentos que ocorreram em vida, buscaram outros animais, proximamente relacionados a esse. Desejavam ver se neles também ocorria esse tipo de marca ou se era algo exclusivo do espécime analisado:
— E, para a nossa surpresa, também ocorria em outros exemplares — detalha Garcia.
Parceria com Argentina
A pesquisa do jovem bageense de 27 anos, que foi supervisionada pelo paleontólogo da UFSM Rodrigo Temp Müller, estendeu-se para o país ao lado, contando com a colaboração do paleontólogo argentino Ricardo Martínez, da Universidad Nacional de San Juan. Juntos, compararam os animais encontrados tanto no Brasil quanto na Argentina, em busca das marcas. E o resultado: quase metade dos crânios analisados apresentava sinais de ferimentos cicatrizados, sugerindo que esses animais mordiam uns aos outros durante confrontos.
— Esses dinossauros que a gente tem aqui são importantes porque eles são, de fato, os mais antigos conhecidos, até então, no mundo inteiro. Ter essas patologias preservadas nesses animais nos dá a evidência de que, já na origem do grupo, eles apresentavam esse comportamento de morder a face um do outro, algo que a gente observa em animais viventes, principalmente em crocodilos — complementa o paleontólogo.
Segundo ele, os conflitos entre os indivíduos poderiam ser originados por território, por caça ou disputa por fêmeas. Este tipo de comportamento foi observado em animais muito mais recentes na linha do tempo, que viveram nos períodos jurássico (entre 201 e 145 milhões de anos atrás) ou cretáceo (145 e 66 milhões de anos atrás). No triássico, é a primeira evidência, de acordo com Garcia:
— Esse nosso registro é bastante importante, porque, muitas vezes, conseguimos tirar bastante informação dos ossos, dos esqueletos, mas informações do comportamento destes animais é muito difícil. É algo que dificilmente se preserva. Com raras exceções, quase nunca consegue se inferir muita coisa a respeito do comportamento. Então, esse tipo de patologia é uma das poucas evidências que consegue nos mostrar, mais ou menos, como era o comportamento, pelo menos um pedacinho, desses animais tão antigos.
Terra de dinossauros
Oriunda da América do Sul, a espécime Gnathovorax cabreirai viveu no período triássico, há mais ou menos 230 milhões de anos. O animal era um carnívoro e podia chegar a 6 metros de comprimento — da ponta do rabo a ponta do focinho — e, mais ou menos, 2 metros de altura, chegando a pesar 400 quilos. Possuía dentes afiados e longas garras, que ajudavam a predar. Não se tem indícios, porém, de que a espécie teria plumas.
— Esses animais que viveram no triássico que a gente tem preservados aqui no Rio Grande do Sul estão mais distantes temporalmente da queda do asteroide que dizimou os dinossauros do que a gente hoje em dia. A época que esses dinossauros do triássico viveram dá uns 160 milhões de anos de diferença do asteroide, enquanto nos dias de hoje para a queda dá 65 milhões de anos. Então, os dinossauros viveram por muito tempo na Terra e tiveram muita diversidade — finaliza Garcia.
O estudo do paleontólogo gaúcho foi publicado no periódico científico The Science of Nature.