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As notícias falsas correm pelo Facebook e pelo WhatsApp de modo quase automático, compartilhadas pelos milhares de usuários da internet e do aplicativo. Uma reportagem do jornal The Washington Post, divulgada neste sábado (17), mostrou dois casos de pessoas que viram suas publicações irreais ganharem milhares de compartilhamentos por seguidores que não checaram a fonte desses dados. Os dois têm consciência de que geram conteúdo fictício, mas não esperavam tamanho retorno.
A primeira história detalhada é a do norte-americano Christopher Blair, 46 anos. Ele é um desses geradores de notícias que surgiram em reflexo à discordância com o sistema político vigente. Em 2016, durante a campanha presidencial dos EUA, Blair lançou o site America's Last Line of Defense (Última frente de defesa da América, em tradução livre) para divulgar informações fictícias que considerava engraçadas, mas que tinham forte apelo e possibilidade de divulgação por usuários de extrema direita.
No período, ele produziu histórias de que Bill Clinton teria se tornado um serial killer e de que o ex-presidente Obama se recusou a servir ao Exército quando tinha nove anos de idade. No texto de chamada nas redes sociais, sempre utilizava a frase "compartilhe se você está indignado", o que elevou a taxa de engajamento e de seguidores entre apoiadores de Donald Trump com mais de 55 anos.
Antes de criar o site, Blair inventou perfis falsos, como de uma mulher loira atraente ou um homem idoso mais conservador, estimulando a publicação de comentários racistas e sexistas, para então reaproveitar os posts de terceiros nesses perfis – que eram aproveitados para disseminar opiniões políticas extremistas.
Assustado com a repercussão de algumas publicações, Blair criou recentemente um grupo fechado com mais de cem usuários liberais para policiar sua própria página. A intenção é conter comentários extremistas de direita que se apropriem de informações erradas, para que o conteúdo não se torne uma verdade. Ele também pediu ao Facebook para encerrar 22 páginas que estavam republicando seu conteúdo sem autorização - e que não informavam de que se tratava de uma sátira.
Ativismo com cliques
Shirley Chapian, 76 anos, é representante de outro grupo dentro das redes sociais: o que acredita na representatividade e na defesa de uma causa dando apenas uma curtida ou realizando um simples compartilhamento. Moradora de uma região desértica dos EUA, ela dividia sua rotina entre a prática de costura e atividades manuais - agora, as redes sociais se tornaram sua principal ocupação.
Preocupada em cumprir fases de joguinhos dentro do Facebook, Chapian aproveita o tempo livre para rolar seu feed de notícias e se engajar em causas que pedem alguma ação do usuário. "Clique COMPARTILHAR para ajudar a ENCERRAR a invasão de imigrantes" é o tipo de post mais comum.
Durante as eleições que colocaram Obama na presidência, ela procurou conteúdos que confirmassem sua intuição de que ele era arrogante e inexperiente. E mais: no Facebook, encontrou notícias até mesmo de que ele representaria risco para o país e que era defensor do sistema socialista. No meio disso tudo, ela confessa que não acredita em tudo o que lê online, mas também não confia completamente nos meios de comunicação mais tradicionais.
Em diversos posts que compartilha, gosta de iniciar com os dizeres "Não é uma teoria da conspiração, mas...". Este simples ato estimulava outros usuários a considerarem a possibilidade real, ganhando outras denotações em perfis secundários.
Investigação do The New York Times
A reportagem do Washington Post encerrou uma semana em que outro jornal norte-americano havia abordado a crise de credibilidade do Facebook. Na quarta-feira (14), uma extensa investigação jornalística publicada pelo jornal The New York Times, sob o título "Adie, negue e desvie: como a direção do Facebook lidou com a crise", revelou que a rede social de Mark Zuckerberg omitiu informações sobre a interferência russa nas eleições dos EUA, com base nos testemunhos de mais de 50 pessoas, concedidos com a condição do anonimato.