
Quem passou algum tempo nas redes sociais recentemente provavelmente se deparou com imagens inspiradas no universo do Studio Ghibli. A brincadeira viralizou, com usuários compartilhando ilustrações geradas por inteligência artificial (IA) com base em fotos pessoais. Apesar do encanto visual, especialista alerta que a prática é arriscada.
A trend (conteúdo que vira tendência nas redes) começou com o ChatGPT, da OpenAI, que, na versão GPT-4o, ganhou a capacidade de criar artes com diferentes traços, incluindo os do icônico estúdio japonês. Outras ferramentas de IA também já permitem solicitar a produção de ilustrações parecidas, feitas a partir de uma foto enviada pelo usuário.
— O principal problema é que você está distribuindo a sua "digital" para uma empresa específica. E a "digital" é um dado biométrico. Dá para mudar a senha e qualquer outra forma de acesso, mas não dados biométricos. Então você está passando o rosto de várias formas para a inteligência artificial. E esses dados podem ser usados para uma série de coisas — explica Anderson Ferrugem, professor de Inteligência Artificial na Universidade Federal de Pelotas (UFPel).

O que pode acontecer ao participar da trend?
Com uma foto, as empresas de IA podem ter informações necessárias para criar deepfakes, técnica que copia rostos e vozes para gerar vídeos ou imagens falsas. Esses dados também podem ser usados para treinar outras IAs sem consentimento. O professor também cita a possibilidade de ocorrer o cruzamento de dados. Ou seja, usar alguma informação presente na imagem para descobrir onde a pessoa está.
— Hoje, o petróleo do mundo, o principal commodity do mundo são os dados. E com isso, o céu é praticamente o limite para o que se pode fazer. Podem manipular esses dados, fazer o treinamento de algo que não sabemos até e, principalmente, a empresa acaba tendo esses dados biométricos — ressalta.
Em alguns casos, as pessoas podem pensar que não há importância em entregar esses dados para as empresas de tecnologia. Ferrugem relembra que algumas informações presentes nas fotos podem gerar propaganda direcionada. Isso significa que, durante uma eleição, por exemplo, o usuário pode receber conteúdos específicos programados para atingir um certo público.
Para se proteger, a melhor alternativa seria não participar da brincadeira. Para quem não conseguir resistir, a dica de Ferrugem é escolher sites que tenham algum respaldo e que sigam a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). É essencial que os usuários estejam familiarizados com os termos de uso dessas ferramentas antes de compartilhar dados pessoais.