
Um drama de superação ainda em curso. Assim poderia ser definida a relação do estudante Livan Gonçalves Sangaletti, 33 anos, com a covid-19. Natural de Arvorezinha, no Vale do Taquari, ele vive situação que é uma das mais emblemáticas da síndrome pós-covid, mais conhecida como covid longa.
Desde outubro de 2021, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece os impactos da doença a longo prazo. Trata-se da condição identificada quando alguns sintomas persistem na pessoa por mais de quatro semanas após a infecção.
A história de Sangaletti iniciou-se entre o final de abril e o começo de maio de 2021. Na época, com 29 anos, começou a sentir cansaço e falta de ar e decidiu procurar ajuda no Pronto Atendimento Cruz Azul, em Porto Alegre. O exame de raio X mostrou infecção e 80% de comprometimento dos pulmões. Foi orientado a se dirigir ao setor de emergência do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.
Drama pessoal
Naquele tempo, o teste de covid demorava dois dias para ficar pronto. Como os sintomas eram parecidos com os da doença, os médicos colocaram o paciente na ala dos contaminados pelo vírus. Porém, o resultado deu negativo. Então, teve início uma série de exames para descobrir a causa do problema nos pulmões.
— Um pneumologista descobriu que eu tinha uma infecção fúngica nos pulmões. É um fungo chamado Criptococose, que geralmente se pega de pombos ou de algumas árvores — explica Sangaletti, sentado no sofá do apartamento onde vive na Rua Vasco da Gama, no bairro Rio Branco.
Após a identificação da causa, começou o tratamento contra o fungo. O paciente ainda se contaminou com covid na instituição hospitalar. E havia um agravante: a cepa era muito resistente. Rapidamente, ele piorou. Os médicos optaram por entubá-lo. Seria o início de um drama pessoal.
— Já na entubação, tive três paradas cardiorrespiratórias, mas me reanimaram. Passados uns três ou quatro dias, eu tive um AVC (acidente vascular cerebral) — recorda Sangaletti, dizendo que os médicos não sabiam a extensão dos danos em razão de ele estar entubado.
Quase dois meses entubado
A situação era complexa e muito grave. Os médicos disseram para sua mãe (Joaninha Gonçalves, 56) que se o filho sobrevivesse, provavelmente teria vida vegetativa: não conseguiria mais falar nem caminhar.
— Disseram para minha mãe: "O risco de ele se salvar é muito pequeno. A febre não baixa e já demos o antibiótico mais forte que tínhamos no hospital".
Foram quase dois meses entubado. Mas um dia Sangaletti abriu os olhos. Estava consciente de que se encontrava no hospital. Para surpresa dos médicos, ele falava, apesar de não sentir os braços e as pernas.
Naquela ocasião, a primeira palavra que disse foi "mãe". Perguntado pelos presentes na sala o que desejava, respondeu:
— Uma melancia bem gelada.
Internação na UTI
Porém, o calvário estava longe do fim. Teve problemas no fígado, herpes-zóster, múltipla falência dos rins e trombose. Necessitou de hemodiálise e de traqueostomia. A imunidade despencou e precisou ser internado na UTI (Unidade de Terapia Intensiva), onde ficou quase cinco meses.
Debilitado, ainda necessitou ficar mais dois meses no quarto. Naquela época, a equipe médica do Clínicas se mobilizou para levá-lo diariamente em uma maca até o terraço do prédio para poder pegar sol.
Para mim, o mais duro foi aceitar que um jovem de 29 anos agora estava em cima de uma cama, usando fraldas e só conseguindo se locomover de maca
LIVAN GONÇALVES SANGALETTI
Estudante e paciente de covid longa
Para se comunicar nos momentos mais difíceis, mexia a perna direita e mandava beijos com os lábios para a equipe de enfermaria. Foi a forma que encontrou para dizer que sentia alguma dor. Naqueles momentos, imaginava um lugar verde e bonito para suportar o desconforto.
— O processo mais doloroso foi não conseguir beber água. Naquele período na UTI, eu daria tudo o que tinha por um copo d'água — diz.

Causa desconhecida
Quando recebeu alta, precisou ser levado de maca para casa. Tinha perdido massa muscular e não conseguia se levantar e caminhar. E surgiu um novo problema: adquiriu polineuropatia, distúrbio que acontece quando diversos nervos periféricos do corpo começam ao mesmo tempo a não funcionar corretamente.
— O coração não conseguia bombear sangue para todo o corpo. Comecei a ter encurtamentos no tendão, meu pé caiu para a frente, ficou um pé equino. Foram várias pneumonias, infecções no sangue e nos ossos — enumera Sangaletti, que não tinha comorbidades e não fumava, mas estava acima do peso.
— Ainda não sabem a causa — comenta o paciente de covid longa, que mora há seis anos na Capital.
O padrasto Renato Nunes, 56, passa o tempo inteiro à disposição do enteado e atua como seu cuidador pessoal. Questionado sobre a maior dificuldade desse período, Sangaletti conta que o complicado foi aceitar a própria condição.
— Eu era uma pessoa supersaudável. Corria, tinha uma vida normal e estava fazendo pré-vestibular. E era monitor no cursinho. Nem nos meus piores pesadelos eu podia imaginar que ia passar por tudo isso — reflete.
Cirurgia de emergência

Atualmente, Sangaletti necessita de cadeira de rodas e tem paralisia no lado esquerdo do corpo em função do AVC. Não consegue caminhar, tem limitações pulmonares e colangite (inflamação com fibrose progressiva dos ductos biliares) no fígado, o que o colocou na fila de transplante por um novo órgão. Além disso, tem coceira no corpo e mudou de cor. Ficou com a pele escura em razão do uso de medicamentos muito fortes.
— Para mim, o mais duro foi aceitar que um jovem de 29 anos agora estava em cima de uma cama, usando fraldas e só conseguindo se locomover de maca — compartilha.
Então aconteceu outro imprevisto. Teve pedras no rim e precisou de um implante de cateter duplo J (usado para tratamentos urinários no ureter). Como houve demora para a retirada do duplo J, calcificou. Foi necessário fazer uma incisão no lado da barriga de Sangaletti para retirar o cateter. Horas depois, ele passou mal e sentiu dores. Era uma hemorragia. Criou-se um coágulo do tamanho de uma bola de futebol em seu abdômen. Foi necessária uma cirurgia de emergência.
Os médicos avaliaram a situação e optaram por deixar o próprio organismo absorver o material. O receio era de que ele tivesse nova infecção. Porém, Sangaletti sentiu-se mal ao voltar para casa. Foi preciso retornar para o hospital e abrir o abdômen para resolver o problema. Nesse momento, teve infecção generalizada, pegou pneumonia, foi novamente entubado e internado por quase dois meses. O drama não tinha fim.
Ingresso no curso de Medicina
A vida dele não era nada alvissareira. Outros na mesma situação talvez tivessem desistido de viver. Mas Sangaletti, que tem cinco irmãos e sonha em ajudar a mãe a ter melhores condições de vida, decidiu lutar. Era como se não aceitasse morrer. Escolheu seguir respirando.
Em 2023, ele fez o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). No ano seguinte, passou no vestibular da UFRGS para cursar Medicina. Mas como estava na UTI, perdeu o prazo de inscrição. Desesperado, ligou para a universidade chorando. Foi preciso contratar uma advogada. Conseguiu ser aceito e agora cursa o segundo semestre.
— A gente não pode desanimar. Muita gente morreu por muito menos que isso. E eu estou aqui. A minha recuperação é um processo longo. É como se eu fosse traçar uma reta e a cada dia eu percorresse um metro, dois metros. O processo é a somatória de cada pouquinho — afirma. — A perspectiva para mim era o cemitério ou a vida vegetal. Tenho que agradecer a Deus e ter muita fé e esperança — acrescenta.
O caso dele tem sido estudado por instituições médicas até do Exterior. Como pode um paciente superar tantas situações graves? Sangaletti venceu a morte em mais de uma ocasião. E ainda permanece no campo de batalha.
Lenta reabilitação
O médico Diego de Andrade Groth, 42 anos, contraiu covid em novembro de 2020. Ficou internado durante 85 dias no Hospital Divina Providência, em Porto Alegre. Três dias após dar entrada na instituição, precisou ser entubado.
— A única parte de que me lembro foram os últimos quatro dias da UTI e os seis dias do quarto — menciona Groth, que atua na área da dermatologia e não tinha nenhuma comorbidade.
Na infância, teve bronquite. E foi só. Quando pegou covid, ainda não havia vacina disponível. A maior parte do tempo no hospital foi entubado e o que sabe ouviu por meio de relatos de familiares.
— Tive várias infecções, tromboembolismo pulmonar, lesão neurológica chamada encefalopatia posterior reversível, fiz uso de muitos antibióticos e precisei de anticoagulante quando saí do hospital. E tive várias convulsões durante a internação — conta o médico.
O processo foi bem lento para eu conseguir me reabilitar e voltar para o normal
DIEGO DE ANDRADE GROTH
Médico que contraiu covid em 2020
Além disso, passou ainda por hemodiálise em função de uma insuficiência renal aguda e teve a parte pulmonar bastante impactada. A reabilitação foi bem lenta.
— Fora a fisioterapia durante a minha internação hospitalar, fiz a motora, a respiratória. Saí de cadeira de rodas, usei andador e passei por muita fisioterapia. O processo foi bem lento para eu conseguir me reabilitar e voltar para o normal.
"O pior é a parte psicológica"
No começo, o cansaço era uma das principais sensações, e faltava força até para executar tarefas rotineiras como tomar banho. Precisou de ajuda durante muito tempo.
— O pior é a parte psicológica. Quando voltei a trabalhar, ficava bem receoso e sempre usando máscara — observa.
O medo de passar pela situação novamente era presente. Após a alta, Groth teve acompanhamento psicológico durante um período.
— Não sei nem muito o que dizer. Nunca imaginei que pudesse passar por uma coisa assim tão novo, sem nenhuma doença. Sabia tudo o que estava acontecendo, mas a gente não sabe o que pode acontecer amanhã. É se cuidar, se alimentar bem, fazer exames regularmente e aproveitar a vida — pensa.
Deficiência no pulmão
A funcionária pública Rosane Pires Fatturi, 64, contraiu covid em 2021, depois do marido. No começo dos sintomas, ficou em casa, mas, como a situação piorou, precisou ser internada no Hospital Mãe de Deus, em Porto Alegre, onde ficou 60 dias. Naquele período, permaneceu entubada durante 32 dias.
— O que eu realmente adquiri foi uma deficiência no pulmão. Seguidamente, eu desenvolvo uma pneumonia. Já tive três vezes no pós-covid — relata Rosane, que não tinha qualquer comorbidade.
A gente não está livre de nada. Temos que estar preparados para as adversidades da vida
ROSANE PIRES FATTURI
Funcionária pública que contraiu covid em 2021
Naquela ocasião, pediu para os familiares não contarem para a filha Michele, que mora nos Estados Unidos, sobre a sua internação. Rosane recorda o dia em que vários médicos estavam em torno dela e decidiram pelo processo de entubação. Com o agravamento do cenário, a filha foi avisada e pegou um avião para o Brasil.
— Ela (Michele) deixou a minha netinha com o esposo e veio para cá. Ela foi incansável, todos os dias vinha para o hospital. Foi a pessoa que fez tudo para mim. Foi minha voz, estudava o assunto, pressionava os médicos e as enfermeiras. Ela salvou a minha vida — emociona-se.
"A gente não vai antes do tempo"
Em relação àqueles dias, Rosane recorda o receio de que outros integrantes da família contraíssem o vírus.
— Eu mesma não tinha noção. Em seguida que cheguei lá, fui entubada. Nos momentos mais críticos, estava entubada. O que mais me preocupava mesmo era alguém da minha família pegar — revela Rosane, que teve covid ainda em outra ocasião, mas os sintomas foram mais brandos.
Nos meses seguintes após a alta hospitalar, foram necessárias sessões de fisioterapia e de fonoaudiologia, pois havia passado por traqueostomia durante a internação. Naquela época, ela ainda precisava de cadeira de rodas.
Entre os cuidados atuais, a funcionária pública menciona atenção especial com os resfriados, para que não virem uma pneumonia. Os pulmões ficaram com limitações.
— A gente não está livre de nada. Temos que estar preparados para as adversidades da vida. Ninguém vai antes do seu tempo. Temos alguma tarefa para cumprir aqui e não vamos antes de cumprir essa tarefa — reflete.
Tudo o que passou ainda parece recente para ela. E há uma mensagem a ser compartilhada com quem também já esteve cara a cara com a morte:
— Eu tinha tudo para morrer. Os médicos desenganaram. Estou aqui viva, produzindo, e fica esse recado: a gente não vai antes do tempo.
Fadiga é sintoma muito relatado
O chefe do Serviço de Fisiatria e Reabilitação do Hospital de Clínicas, Thiago Calcagnotto Farina, divide suas impressões sobre o atendimento dos pacientes de covid longa. Ele esteve inclusive na linha de frente durante a pandemia em Porto Alegre.
— Talvez o sintoma mais relatado entre todos seja a fadiga. Mas temos pacientes com queixas respiratórias, tosse persistente, falta de ar, quase como se desenvolvessem um quadro asmático — diz.
Segundo o profissional, há relatos de arritmias cardíacas, palpitações, dor torácica, artralgias (dores nas articulações), fibromialgia, dores de cabeça, alterações da parte cognitiva, como memória, concentração e quadros de ordem emocional.
— Principalmente depressão e ansiedade — cita.
Conforme o chefe do Serviço de Fisiatria do Hospital de Clínicas, a perda de olfato e paladar pode se estender por alguns meses até o paciente conseguir recuperar. Mas há ainda outras situações:
— Um sintoma supercomum é a neuropatia, que são as alterações dos nervos periféricos. Pode acontecer tanto nos membros superiores quanto nos inferiores. E causa dor, formigamento, ardência, queimação, referida como choques, principalmente nas pernas, associada a perda de força e massa muscular — detalha, dizendo que o paciente, às vezes, tem alterações de equilíbrio.
Temos pacientes que ficaram com sequelas irreversíveis
THIAGO CALCAGNOTTO FARINA
Chefe do Serviço de Fisiatria e Reabilitação do Hospital de Clínicas de Porto Alegre
Os pacientes de covid longa precisam passar por sessões de fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional e outros tipos de acompanhamento. O profissional menciona que aqueles com comorbidades são os mais suscetíveis à covid longa.
— Paciente que é hipertenso grave, diabéticos mais graves, quem tem cardiopatia prévia, que já enfartou, teve AVC ou tenha alguma doença renal crônica e pacientes oncológicos têm maiores riscos. E os idosos — afirma.
Cinco anos depois, a covid longa ainda representa uma luta a ser vencida para muita gente. Alguns precisam se adaptar às limitações impostas pela doença.
— Temos pacientes que ficaram com sequelas irreversíveis — conclui o médico.