Há uma felicidade imensa nas coisas simples e pequenas do dia a dia. Poder voltar para casa depois de dias longe e desfazer a mala, se preocupar com qual xampu usar depois de ter vencido um câncer, esperar ansioso pela comida feita em casa depois de um tempo dentro de um hospital. Coisas tão simples e tão necessárias. E a lista destes pequenos aconchegos quase invisíveis pode aumentar: tomar um café quente feito na hora num dia triste, deitar-se por entre os lençóis limpos da cama e sentir o perfume do cuidado, descobrir uma flor nova no jardim prestes a desabrochar, receber uma mensagem querida de alguém que há tempos não se vê, dizendo um oi, abraço de mãe, cheiro de vó, o ronrom dos gatos deitados no sofá completamente distantes das preocupações do mundo, a lambida faceira do cãozinho amigo quando o buscamos depois do banho no pet. Há um descabimento poético e intenso na possibilidade do encontro. Sempre somos outros depois que nos depararmos com a beleza quase imperceptível da vida. Mas é preciso estar disponível para que o milagre aconteça. Um milagre que só depende de nós.
Nos preocupamos com tantas coisas e, na maioria das vezes, deixamos a poesia nos escapar. Num mundo tão denso, precisamos aprender a ser mais fluidos. Estamos nos acostumando em demasia a sentir medo, raiva, indignação. É claro que não vamos conseguir e, nem devemos, nos autoenganar. Sabemos que viver e conviver com o outro tem sido um desafio constante. Mas que isso não faça de nós mais um entre tantos que têm a arrogância e a prepotência como formas de vida.
Gente que tem certezas demais, que impõe suas ideias, que não sabe dialogar, que mantém a mente fechada e acha que pode julgar o outro, diferente de si, o tempo todo, colocando-se no lugar do dono da verdade é, no mínimo, insuportável. Às vezes, afastar-se de pessoas assim é sinal de saúde. O mundo já está cheio de gente que quer fazer acontecer o que quer que seja. Talvez escolher um outro caminho, seja o caminho. Já temos entre nós discordâncias demais.
Ninguém nasceu com o destino de ser uma bomba atômica, embora muitos tenham em si um poder de destruição enorme. Estamos, todos, cheios de chumbo, prontos para disparar nossa munição em direção ao outro e perdemos a chance de viver. Porque esta vida vai terminar, um dia morreremos e então aquela velha ladainha do arrependimento: de que se poderia ter feito diferente. O ato até pode ser verdadeiro, mas o tempo passou e não teremos uma nova chance.
Por isso, talvez a gente precise aprender a mastigar a realidade e a cuspir pedacinhos mais iluminados de vida, devolver em palavras quando possível e se impossível, afastar-se. O único milagre necessário é o de podermos nos transformar em pessoas melhores. Mas isso não fará de nós seres especiais, pelo contrário, nos fará humanos e o mundo carece de pessoas com P maiúsculo que sejam mais poesia, paciência e paz.
É preciso encontrar a saída do labirinto de si mesmo e aprender a sorrir com o fígado.