
Aguardado com apreensão em todo o planeta, o “Dia da Libertação” prometido por Donald Trump chegou. Nesta quarta-feira (2), o presidente dos Estados Unidos apresentou um pacote de tarifas impostas pelos Estados Unidos a parceiros comerciais.
O tarifaço segue uma tabela apresentada por Trump durante o anúncio. Os produtos brasileiros foram taxados em 10% — para a China, será 34%, e para a União Europeia, 20%. As medidas entram em vigor de forma imediata.
Para especialistas em comércio exterior consultados por Zero Hora, as tarifas impostas ao Brasil "ficaram dentro do esperado", e o efeito geral na atividade econômica brasileira, pelo menos em um primeiro momento, deve ser moderado.
— Foi dentro do esperado, e poderia ter sido pior. Podemos dizer que o Brasil ficou entre os países menos atingidos pelo "tarifaço" de Trump, com uma tarifa média geral de importação de 10%. Pelo patamar não elevado da taxa aplicada aos produtos brasileiros, e muito abaixo do que foi aplicado para alguns outros países, o impacto imediato nas exportações brasileiras para aquele país deve ser mínimo — afirma Arno Gleisner, diretor da Câmara de Comércio, Indústria e Serviços do Brasil (Cisbra).
Para André Azevedo, professor de Economia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), o fato de a taxa aplicada ter sido uniforme a todos os produtos também foi uma notícia positiva do anúncio.
— O impacto sobre a exportação brasileira deve ser relativamente limitado no curto prazo, em razão da tarifa de 10%, baixa em comparação com outros países, ter sido aplicada de forma uniforme a todos os produtos. Setores brasileiros que mais exportam para os Estados Unidos, como petróleo e derivados, não foram mais taxados que os demais, o que também contribui para esse impacto moderado. O que ainda não está claro é se essa tarifa única para todos os produtos exportados pelo Brasil deve ser somada às tarifas vigentes, como a já anunciada para o aço, por exemplo — reforça.
Desde 12 de março, os exportadores brasileiros vinham sofrendo o efeito da política tarifária de Trump em relação ao aço e ao alumínio. Na data, começou a valer uma tarifa de 25% sobre todas as importações destes materiais pelos Estados Unidos.
O economista-chefe da consultoria Suno, Gustavo Sung, lembra ainda que a relação comercial entre Brasil e Estados Unidos é superavitária aos norte-americanos, o que pode ter impactado na taxa anunciada aos produtos brasileiros.
— A meu ver, foi uma tarifa bem mais moderada do que poderia ser. O Brasil, na realidade, tem déficit comercial com os Estados Unidos. Por isso, o efeito vai ser bem menor em relação a outros países, que foram taxados de forma mais pesada — destaca Sung.
Possível resposta brasileira
Os especialistas consultados pela reportagem também acreditam que o Brasil não deve apresentar uma retaliação imediata aos produtos norte-americanos. Quando o aço estrangeiro passou a ser taxado a 25% nos Estados Unidos, o governo brasileiro decidiu por "negociar", e não "retaliar".
— O caminho da negociação me parece muito mais razoável do que o da "guerra comercial". Nossa diplomacia precisa sentar, refletir sobre qual ação será mais benéfica para os interesses do país, e os Estados Unidos são um grande parceiro comercial brasileiro. Como as tarifas são recíprocas, o Brasil pode tentar buscar algum acordo especial com os Estados Unidos para reduzir, ou eliminar, as tarifas de forma mútua, como a Argentina busca — destaca Ronald Hillbrecht, professor da faculdade de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
José Augusto de Castro, presidente-executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), também acredita que o governo brasileiro deve favorecer a via da negociação, pelo menos neste primeiro momento.
— Nesse momento, não deve existir uma retaliação recíproca a produtos especificamente dos Estados Unidos, até porque não é essa a tradição do comércio exterior brasileiro. Temos que negociar com os americanos, há margem para isso em razão da taxa mais baixa que foi aplicada ao Brasil em relação a outros países, que sofreram com tarifas mais elevadas — ressalta Castro.
Na última semana, o presidente Lula afirmou:
— Antes de fazer a briga da reciprocidade e de fazer a briga na Organização Mundial do Comércio, a gente quer gastar todas as palavras que estão no dicionário para fazer o livre comércio com os EUA.
O Congresso Nacional, por outro lado, aprovou o chamado "PL da Reciprocidade". A proposta, que permite ao governo retaliar medidas comerciais unilaterais que prejudiquem a competitividade das exportações do Brasil, foi aprovado na terça-feira (1º) pelo Senado e nesta quarta pela Câmara dos Deputados.
Em nota divulgada na noite desta quarta, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil destacou a aprovação desta proposta como uma possível alternativa "para assegurar a reciprocidade no comércio bilateral", citando ainda a possibilidade de recurso à Organização Mundial do Comércio. A manifestação também destaca que o Brasil "se mantém aberto ao aprofundamento do diálogo estabelecido ao longo das últimas semanas com o governo norte-americano para reverter as medidas anunciadas".
"Em defesa dos trabalhadores e das empresas brasileiros, à luz do impacto efetivo das medidas sobre as exportações brasileiras e em linha com seu tradicional apoio ao sistema multilateral de comércio, o governo do Brasil buscará, em consulta com o setor privado, defender os interesses dos produtores nacionais junto ao governo dos Estados Unidos", diz a nota do Itamaraty (leia a íntegra abaixo).
Tarifaço também pode gerar oportunidades
O pacote de tarifas anunciadas por Trump também pode oferecer oportunidades para que os produtos brasileiros ganhem mais espaço dentro do mercado norte-americano. Isso pode ocorrer em razão da taxação maior que receberam países como China (34%) e Índia (26%), e também a União Europeia (20%).
— O Brasil já foi beneficiado, de certa forma, por receber uma tarifa mais baixa do que outros grandes mercados exportadores receberam. Por isso, se conseguir negociar condições ainda menores com os americanos, os produtos brasileiros, principalmente manufaturados, podem ocupar a lacuna que provavelmente vai se formar com a diminuição da exportação de outros países mais taxados aos EUA — observa José Augusto de Castro.
O professor André Azevedo também enxerga possibilidades de o Brasil se aproveitar da "guerra tarifária" criada por Trump para fomentar sua relação com outros mercados.
— Essa política comercial do governo Trump, além de levar a medidas de retaliação unilaterais e/ou conjuntas dos países mais afetados, estimulará a formação de acordos comerciais entre outros países. No caso do Brasil, para melhor proveito da situação, seria importante que fosse finalmente finalizado o acordo do Mercosul com a União Europeia, que ainda não foi votado pelos respectivos parlamentos. Além disso, seria importante a criação de acordos com países emergentes, quem sabe transformando o BRICS em um bloco econômico, com medidas de liberalização comercial entre seus membros, transformando-o em uma área de livre comércio de forma gradual, e não apenas um instrumento geopolítico, como é atualmente — aponta.
Outras tarifas já anunciadas
Além do anúncio realizado nesta quarta-feira, a partir de quinta (3) entram em vigor também as tarifas de 25% para importação de automóveis nos EUA. Trump iniciou o anúncio desta quarta reforçando a validade desta medida.
O presidente norte-americano também já havia anunciado a imposição de tarifas de 25% sobre qualquer país que importe petróleo e/ou gás da Venezuela, além de tarifas sobre medicamentos farmacêuticos importados, ainda a serem definidas.
Trump também havia imposto tarifas de 25% sobre algumas das importações vindas do México e do Canadá e que não se enquadrem no USMCA (acordo comercial que existe entre os três países), e também de 20% sobre produtos vindos da China.
Manifestação do Itamaraty
O governo brasileiro lamenta a decisão tomada pelo governo norte-americano no dia de hoje, 2 de abril, de impor tarifas adicionais no valor de 10% a todas as exportações brasileiras para aquele país. A nova medida, como as demais tarifas já impostas aos setores de aço, alumínio e automóveis, viola os compromissos dos EUA perante a Organização Mundial do Comércio e impactará todas as exportações brasileiras de bens para os EUA.
Segundo dados do governo norte-americano, o superávit comercial dos EUA com o Brasil em 2024 foi da ordem de US$ 7 bilhões, somente em bens. Somados bens e serviços, o superávit chegou a US$ 28,6 bilhões no ano passado. Trata-se do terceiro maior superávit comercial daquele país em todo o mundo.
Uma vez que os EUA registram recorrentes e expressivos superávits comerciais em bens e serviços com o Brasil ao longo dos últimos 15 anos, totalizando US$ 410 bilhões, a imposição unilateral de tarifa linear adicional de 10% ao Brasil com a alegação da necessidade de se restabelecer o equilíbrio e a “reciprocidade comercial” não reflete a realidade.
Em defesa dos trabalhadores e das empresas brasileiros, à luz do impacto efetivo das medidas sobre as exportações brasileiras e em linha com seu tradicional apoio ao sistema multilateral de comércio, o governo do Brasil buscará, em consulta com o setor privado, defender os interesses dos produtores nacionais junto ao governo dos Estados Unidos.
Ao mesmo tempo em que se mantém aberto ao aprofundamento do diálogo estabelecido ao longo das últimas semanas com o governo norte-americano para reverter as medidas anunciadas e contrarrestar seus efeitos nocivos o quanto antes, o governo brasileiro avalia todas as possibilidades de ação para assegurar a reciprocidade no comércio bilateral, inclusive recurso à Organização Mundial do Comércio, em defesa dos legítimos interesses nacionais.
Nesse sentido, o governo brasileiro destaca a aprovação pelo Senado Federal do Projeto de Lei da Reciprocidade Econômica, já em apreciação pela Câmara dos Deputados.