
O jornalista Jocimar Farina deu em primeira mão a notícia sobre a intenção do governo Eduardo Leite de comprar um avião e, nesta quarta-feira (2), a informação sobre a desistência. A polêmica durou exatamente uma semana e inundou as redes sociais, com maioria de menções negativas.
Não era uma decisão tomada. Estava na pauta de debates internos sobre a aplicação dos recursos do Fundo Rio Grande (Funrigs), defendida pelas áreas de saúde e segurança do governo, mas prevaleceu no imaginário popular a versão de que seria um jatinho para uso exclusivo do governador.
Os adversários do governador, sabendo que ele deseja ser candidato a presidente, espalharam que o avião seria usado para fazer campanha — uma sandice, dado que para concorrer a qualquer cargo ele terá de renunciar ao mandato até o início de abril de 2026. Se fosse comprado, o avião dificilmente seria usado antes disso, dada a burocracia que se precisa vencer entre a decisão de compra, a entrega, a preparação para ser uma UTI móvel e todas as autorizações para voar.
Sim, a ideia era um avião que pudesse funcionar como UTI móvel para transportar pacientes em estado grave que precisam ser transferidos de uma cidade para outra. Talvez a maioria dos gaúchos não saiba que o governo gastou R$ 14 milhões em 2024 com a contratação de táxi aéreo, sobretudo para transporte aeromédico — são bebês e adultos em estado grave que precisam ser transferidos de um hospital para outro em casos graves.
Havia também a intenção de usar o avião para transporte de órgãos e aumentar o número de transplantes, já que muitas doações de Santa Catarina, por exemplo, vão para outros Estados por falta de transporte. Por fim, a Secretaria da Segurança usaria o avião para viagens de emergência, mas o governo não teve nem tempo de explicar.
Qualquer argumento agora é perda de tempo. A coluna defendeu a compra do avião e também recebeu críticas duras, algumas fundamentadas, outras rasas, como as que falavam em “passar pano” para o governador. Escrevi que ele deveria ignorar as críticas e comprar o avião, mas Leite decidiu encerrar o assunto porque cedeu ao rugido das redes sociais. Seus conselheiros concluíram que se tratava de uma causa perdida, até porque é verdade que o Estado recém colocou as contas em dia e que ainda há muito o que fazer para recuperar os prejuízos da enchente.
Leite e os próximos governadores seguirão usando o velho King Air para visitar o Interior ou o monomotor Caravan, carinhosamente chamado de “kombi voadora”. Para ir a Brasília ou a outros Estados, voo de carreira, como já ocorre hoje. Ninguém morrerá por isso.
Talvez morram pessoas que poderiam ser salvas por um transplante ou pela transferência para um hospital mais equipado, mas quem se importa se não for alguém da sua família?