
A morte de um Papa é um daqueles fatos marcantes, que fazem a gente lembrar onde estava exatamente quando o episódio ocorreu.
Era final de tarde de sábado no Brasil, em 2 de abril de 2005, há exatos 20 anos, quando o Vaticano anunciou o falecimento de João Paulo II, e eu estava saindo de casa, em Porto Alegre, para pegar o voo no aeroporto Salgado Filho rumo a Roma.
Obviamente, como jornalista, eu já estava atrasado — quando uma notícia dessas aparece, queremos estar no centro dos acontecimentos. E eu estava a meio mundo de distância.
Nessas horas é preciso manter a calma e saber que dificilmente, como repórteres, estamos no local exato na hora exata — acontece, mas é exceção. Normalmente, contamos a história a partir do relato de testemunhas.
Desembarquei no coração da fé católica quase 15 horas depois. Ali entendi que a morte de um Papa é apenas o início de uma série de rituais que, na verdade, só terminam no último dia do conclave, com a escolha do novo Pontífice. Foram 18 dias de cobertura que envolveram emoção, noites insones, de até 14 horas na fila para se aproximar do corpo de João Paulo II, no centro da Basília de São Pedro, o enterro, o início do conclave, as especulações até a fumaça branca anunciando Josef Ratzinger ungido Bento XVI.
Lembro dessa história não só pela data redonda, mas pelo fragilizado estado de saúde de Francisco. As histórias entre os dois papas cada vez mais se aproximam: como João Paulo II, o primeiro papa não italiano em 455 anos, o argentino é o primeiro oriundo da América Latina. Eles quebraram tradições. O polonês foi o primeiro a se tratar em um hospital — a clínica Gemelli —, expondo seu calvário pessoal em praça pública.

Até, então, a saúde dos papas era guardada a sete chaves. O estilo carismático também os aproxima, assim como a busca pelo diálogo interreligioso, a humanização da figura do Pontífice e a humildade. Também os une o papel geopolítico: João Paulo II e Francisco se mostraram a altura dos desafios da humanidade, o primeiro durante a Guerra Fria, e o segundo, na pandemia. Os dois, entretanto, têm diferenças de enfoque teológico: o polonês era intransigente defensor da tradição, enquanto o argentino vem tentando implementar uma agenda mais inclusiva — a passos lentos, como, aliás, se move a Igreja.