
A grande polêmica que se formou em torno da intenção de compra de um avião a jato pelo governo do Estado não era a aquisição em si da aeronave — tampouco o valor elevado, em torno de R$ 90 milhões.
O questionamento que se impôs era a origem do recurso. Tudo indica que seria usado dinheiro do Fundo do Plano Rio Grande (Funrigs), o chamado "fundo da enchente", cujo objetivo fundamental é a reconstrução do Estado.
Essa coluna questionou desde o início: o Rio Grande do Sul não teria necessidades mais urgentes?
A cada temporal, como o de segunda-feira (31), que acossou Porto Alegre e Região Metropolitana, percebe-se que, sim, tem. Passados 11 meses da grande tormenta de maio de 2024, estamos ainda muito longe do ideal de proteção, resiliência e adaptação a eventos extremos.
No vídeo em que anuncia a desistência do processo de compra da aeronave, o governador Eduardo Leite afirmou:
— O debate sobre o bom uso do dinheiro público é legítimo, mas precisa ser feito com responsabilidade, com base na verdade. No entanto, uma vez que esse tema foi contaminado pelos argumentos viciados e equivocados que foram trazidos na política e na imprensa, estou demandando que encerre o processo da compra da aeronave.
A coluna defendeu o debate desde o início, mas, infelizmente, ele não ocorreu. Não houve nem tempo.
Leite desistiu no meio do diálogo, atribuindo o recuo a argumentos "viciados e equivocados que foram trazidos na política e na imprensa".
Posições políticas antagônicas sempre vão ocorrer, cada vez mais contaminadas (e barulhentas) pela polarização e pelo ambiente tóxico das redes. Mas é parte do jogo.
Fazer perguntas incômodas, perseguir respostas sobre projetos, questionar o poder e provocar discussões são papeis da imprensa: ser o local, a praça pública, o espaço por excelência para que o diálogo da sociedade.
O governador recuou rápido demais, preocupado com a repercussão que o caso ganhou, sem que o debate tenha ocorrido de fato — e com profundidade.