
O presidente Lula afirmou nesta quinta-feira (3) que responderá a qualquer tentativa dos Estados Unidos de impor medidas protecionistas e que tomará "todas as medidas cabíveis" para defender as empresas brasileiras. Apesar do discurso, a orientação da diplomacia brasileira até agora é para o governo analisar com cautela o cenário, tendo em vista que o Brasil ficou entre os países menos taxados por Donald Trump.
Lula abriu seu discurso em um evento promovido pelo governo, em Brasília, defendendo a soberania do Brasil.
— Este é um país que não abre mão da sua soberania, não bate continência para nenhuma outra bandeira que não seja a verde e amarela. Que fala de igual para igual e respeita todos os países, dos mais pobres aos mais ricos, mas exige reciprocidade no tratamento. Defendemos o multilateralismo e o livre comércio. E responderemos a qualquer tentativa de impor protecionismo, que não cabe mais hoje no mundo — afirmou.
Na sequência, mencionou diretamente o anúncio feito por Trump na véspera.
— Diante da decisão dos EUA de impor sobretaxas aos produtos brasileiros, tomaremos todas as medidas cabíveis para defender nossas empresas e nossos trabalhadores brasileiros. Tendo como referência a lei da reciprocidade econômica aprovada ontem pelo Congresso e diretrizes da Organização Mundial do Comércio (OMC) — complementou Lula.
A lei referida pelo presidente permite ao governo, por exemplo, ameaçar os EUA com retaliações na área de propriedade intelectual, com quebra de patentes, sobretaxa ou suspensão de royalties pagos a empresas americanas.
Apesar do discurso de Lula, internamente a posição do governo é de mais cautela. A avaliação da área diplomática é de que eventuais medidas de reciprocidade precisam ser analisadas para cada setor, e que a iniciativa dos Estados Unidos pode até mesmo beneficiar empresários brasileiros, tendo em vista que outros países receberam tarifas superiores.
O vice-presidente Geraldo Alckmin, que acumula a função de ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), teve conversas nas últimas semanas com auxiliares de Trump. Não conseguiu evitar que o Brasil estivesse na lista dos países afetados, mas pode ter conseguido sensibilizar o governo dos Estados Unidos sobre as vantagens que a relação de 200 anos ofereceu até hoje.
Em nota conjunta com o Itamaraty, o MDIC enfatizou que o superávit comercial dos EUA com o Brasil em 2024 foi da ordem de US$ 28,6 bilhões no ano passado, somados bens e serviços. Trata-se do terceiro maior superávit comercial daquele país em todo o mundo.
"Uma vez que os EUA registram recorrentes e expressivos superávits comerciais em bens e serviços com o Brasil ao longo dos últimos 15 anos, totalizando US$ 410 bilhões, a imposição unilateral de tarifa linear adicional de 10% ao Brasil com a alegação da necessidade de se restabelecer o equilíbrio e a 'reciprocidade comercial' não reflete a realidade", disse o comunicado.
Portanto, apesar do discurso político, qualquer medida de reciprocidade deve ser antecedida por conversas entre o governo Lula e o setor privado, para que sejam bem medidos os prejuízos e benefícios que a política de Trump trará ao Brasil.