
Sentimento de culpa. Só tem quem tem ética, diria um professor graduado. E é verdade. Porque só tem culpa quem parte de um padrão ético ou moral. Tá se sentido culpado? Ainda há esperança em você então... relaxe. Até porque a culpa revela algo mais: ela desempenha um papel importante na, digamos assim, regulação do comportamento social. Termos técnicos do mundo da psicologia, mas bem fáceis de entender.
Pais se apavoram ao ver a série Adolescência porque são quatro capítulos que são espelho. Espelho de uma vida atribulada, distante, remota, irreal, de redes mentirosas de amizade. De redes sociais vendendo mundos vazios e patéticos. E de pais vendo que os filhos estão sendo sugados por um buraco negro que tudo engole.
Adolescência pega nossas vísceras, nosso bucho, e coloca tudo na mesa. Expõe isso na nossa cara. A série tem o cheiro da nossa casa, o cheiro do cobertor de um quarto de menino com uma decoração de espaço sideral. A série tem as nossas digitais que não saem dos smartphones. Tem os nossos olhos que acompanham um scroll infinito de bobagens. Filhos não ouvem os pais, eles copiam os pais. Por isso o desespero e o boom da série.
O assassinato, a polícia, a psicóloga, a escola, tudo isso em Adolescência, são apenas uma desculpa para nos fazer sangrar. De raiva, de inaptidão, de nojo e daquilo de mais difícil que um ser humano pode realizar: colocar a culpa em si mesmo.
Adolescência é os nossos podres. Escancarados para todos. E ninguém tá apontando o dedo pra ninguém, porque desse crime de abandono da infância e da adolescência, todos nós pegamos prisão perpétua.
Os garotos do mundo não estão bem.
E a culpa é minha. E sua. E nem venha tirar seu corpo fora. Porque quem gravou esse vídeo aqui já se cobriu da lama da vergonha. Adolescência é a ressonância magnética da criação distante, frágil, indiferente e tosca do século da internet.
Nunca pensei que minhas pútridas vísceras fossem parar na Netflix.