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O conflito entre russos e ucranianos, que ganhou materialidade com o ataque do Kremlin nesta quinta-feira (24), aproxima os efeitos do Rio Grande do Sul, apesar da longa distância física que separa os dois pontos. A atividade agropecuária, já combalida pelas perdas expressivas provocadas pela estiagem, ganha um novo ponto de preocupação. O principal deles sendo acréscimo de custos de produção para a safra de inverno que será semeada na sequência da colheita frustrada. A maior preocupação reside no fornecimento de fertilizantes. Para atender à demanda, o Brasil precisa importar entre 80% e 85% desse ingrediente, sendo a Rússia um fornecedor de peso.
No caso do nitrato de amônia (que entra na categoria dos nitrogenados), 98% do que é usado na produção brasileira vem da Rússia. Um conflito envolvendo esse fornecedor crucial mexe com o mercado, da disponibilidade de oferta ao preço. Os fertilizantes foram os principais propulsores, em 2021, da maior alta nos custos, 51,39%, verificada desde 2010, início da série histórica da Federação da Agricultura do Estado (Farsul) que mede a inflação do agronegócio.
Reflexo, entre outras coisas, da oferta global restrita do produto, que viu suas cotações dispararem. O mês de janeiro deste ano começou com a expectativa de retomada do segmento. Tanto que o recuo nos preços internacionais de fertilizantes foi um dos fatores que fizeram o índice de custos recuar 0,46%. Também influenciou a variação cambial, além da habitual sazonalidade. A economista da Farsul Danielle Guimarães pondera que o conflito Rússia-Ucrânia traz "vários empecilhos" nesse cenário de despesas:
— Primeiro, porque a Rússia é o maior fornecedor de fertilizantes do Brasil. E, com o conflito, a logística do país é prejudicada. Além disso, o fertilizante que vem da Bielorússia precisa passar pelo território russo. E isso também pode ter impacto.
O papel dos russos no fornecimento de energia elétrica para a Europeia, acrescenta a economista, traz a possibilidade de impactos nesse segmento e no frete.