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Um feriadão de Carnaval sem blocos de rua financiados pela prefeitura de Porto Alegre gerou críticas na comunidade de foliões, que queriam os desfiles nos dias em que ocorre a festa popular. A administração pública diz investir no Carnaval de rua e que o cronograma assegura a celebração no fim de março.
Além do impasse com os blocos, o Executivo municipal não autorizará a celebração na Cidade Baixa por conta da "impossibilidade de garantir segurança dos frequentadores, moradores e comerciantes".
A festa atrasada será realizada na orla do Guaíba, Restinga, Zona Leste e Zona Norte. Serão aportados R$ 500 mil, sendo R$ 250 mil para infraestrutura e R$ 250 mil de cachê para os blocos. A publicação do edital ocorreu em 20 de janeiro e termina em 20 de março.
Conforme a prefeitura, o resultado com os blocos selecionados e as datas dos desfiles deve ser divulgado até o fim da próxima semana (leia abaixo o posicionamento completo da prefeitura).
Insatisfação entre os foliões
Presidente da União dos Blocos, José Claudemir Buchecha afirma que realizar o desfile na rua depois do feriadão atrapalha a festa.
— Há um clima de Carnaval, de festividade, alegria. É um momento fundamental, uma tradição. Adiar é igual comemorar o aniversário um mês depois. É muito triste não acontecer na data — afirma o representante.
Para Buchecha, além do prejuízo cultural, há um dano econômico: menos pessoas tendem a participar da festa fora da semana do Carnaval.
— Os músicos, os foliões e os vendedores ambulantes movimentam muito o comércio. A prefeitura foi protelando a publicação do edital até não dar mais tempo. É uma lástima o que fizeram conosco — acrescenta.
Moradora da Zona Sul, Andreia Maria das Neves, 43 anos, frequenta blocos há três anos. Para ela, não ter o desfile de rua na data evidencia a falta de atenção à cultura popular.
— Seria o nosso Carnaval de superação depois da enchente. A prefeitura nos podou em um momento de extravasar com pessoas que tiveram casas alagadas e se recuperaram. Foi tirado o direito de confraternizar com a nossa comunidade, que espera todo o ano por isso. Isso desmotiva o povo, porque é uma parte da história do Rio Grande do Sul que não é tratada com uma prioridade — pontua.
Assunto político
O tema também motivou posicionamentos críticos no campo político. O deputado estadual Matheus Gomes (PSOL) publicou um posicionamento na rede social X sobre o tema, no qual cita a "Porto Alegre (sem alegria) de Sebastião Melo", com a medida.
Já o vereador de Porto Alegre, Giovani Culau (PCdoB), afirmou que a medida prejudica a cultura e a economia local. "Comerciantes da Cidade Baixa, que já enfrentaram desafios como as enchentes de 2024, veem no Carnaval uma chance de recuperação. Melo, porém, ignora essa necessidade, enquanto outros bairros recebem apoio para eventos similares".
O que diz a prefeitura
Questionada sobre o assunto, a prefeitura de Porto Alegre enviou a seguinte nota:
A atual gestão municipal apoia e investe no Carnaval de Porto Alegre, tanto de rua quando do Porto Seco. O fomento aos blocos de rua existe há dois anos.
A Secretaria Municipal da Cultura está em tratativas com os representantes dos blocos de rua desde o fim do ano passado. O edital dos desfiles foi divulgado em 20 de janeiro, logo após o início do ano fiscal do município.
Deste modo, o Carnaval de Rua de Porto Alegre ocorrerá no final de março e de forma descentralizada: Orla, Restinga, Zona Leste e Zona Norte. Serão aportados R$ 500 mil, sendo R$ 250 mil para infraestrutura e R$ 250 mil de cachê para os blocos. A publicação do edital ocorreu em 20 de janeiro e se encerra em 20 de março.
Blocos independentes - Os blocos independentes, quando solicitado previamente, recebem apoio do município para orientação do trânsito, serviços de limpeza e disponibilização de banheiros químicos. Neste ano, já foram licenciados ou estão com processo em tramitação oito blocos (dois já realizaram seus eventos – os demais acontecerão no feriado de Carnaval ou nas semanas seguintes, em áreas como Orla, 4º Distrito, Restinga e Menino Deus).
Cidade Baixa – Após reunião realizada na quarta-feira, 26, com o Poder Público e órgãos de segurança, o Ministério Público recomendou que a Prefeitura de Porto Alegre não autorize quaisquer eventos de Carnaval de Rua no interior do bairro Cidade Baixa, devido à impossibilidade de garantir segurança dos frequentadores, moradores e comerciantes.