
Jamais testemunhamos tantos crimes hediondos no Estado.
Não tem como não perceber que algo está fora da ordem. Paira uma atmosfera lúgubre e diabólica. As sombras devoram princípios básicos do caráter, como decência e honra.
É uma amiga que roubou um bebê do ventre. É uma esposa que envenenou a família inteira com bolo. É uma filha que incinerou o pai e a madrastra na churrasqueira. É um pai que jogou o filho de cinco anos de uma ponte para se vingar da ex-esposa. É outro pai que teria lançado seu carro em cima de um caminhão para matar seus gêmeos. É um comerciante que estuprou e manteve menina de 9 anos no cativeiro. É um homem que deixou a ex-namorada morta na frente da casa dos pais dela.
São notícias trágicas engolindo as nossas lágrimas, furtando o nosso sorriso, tirando a nossa tranquilidade.
Nunca escrevi tanto sobre maldades monstruosas e covardes. Já não sei se faço crônicas ou obituários.
Do lado estrutural e social, a profusão de aberrações vem aumentando pela cristalização da impunidade. Só no Brasil psicopatas têm esperança de voltar às ruas. Não serão postos na cadeira elétrica ou na prisão perpétua. Não temem o castigo. Não se amedrontam com julgamentos. O único risco a eles é o linchamento, a justiça pelas próprias mãos e os códigos extremistas da prisão.
Polícia prende, e logo estão soltos, recuperando a normalidade sob falsas prerrogativas, com saídas temporárias e 1/6 da pena. A gravidade dos delitos não condiz com o tamanho das penas — sequer são cumpridas à risca. Parece que circula um consenso invisível de relaxamento das sentenças pela superlotação dos presídios. Isso não muda. Os direitos humanos seguem não valendo para as vítimas.
Do lado interno e psíquico, o enfraquecimento da família como instituição é um ponto em comum entre as histórias de horror. A família adoeceu como um todo pelas individualidades exacerbadas, não sendo capaz de constituir uma fortaleza moral diante das transformações tecnológicas.
Não há mais um projeto coletivo, um ideal de lar, abrindo espaço para obsessões românticas, casamentos tóxicos, excesso de telas, consumo desenfreado de pornografia, compulsão por jogos, menosprezo da terapia, descuido com a velhice dos pais, alienação parental, endeusamento do narcisismo como virtude numa sociedade competitiva, inexistência da memória da gratidão, distanciamento dos irmãos e sobrinhos na vida adulta.
Não sobra tempo para educar com disciplina, ou para dizer não. A carência de tempo gera um sim eterno.
Trocou-se o rigor do amor pela bajulação. Trocou-se o sacrifício do amadurecimento pela permissividade. Trocou-se o aprendizado pelo entretenimento.
Desaparecem o contato presencial, o afeto construtivo, as fronteiras entre a fantasia e a realidade.
O costume da culpa é dar liberdade. Ou seja, você não ensina liberdade — para ela virar responsabilidade —, você dá liberdade, que é confundida com falta de limites.
As pessoas crescem hoje sem medo de nada, intoxicadas de virtualidade, longe das experiências e das sensações do mundo concreto. Sem entender que a carne dói. Sem entender o sofrimento. Sem a mínima noção de empatia. Sem se colocar no lugar do próximo. Sem arcar com as renúncias por suas escolhas. Tudo é possível, inclusive o inferno.