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A autofagia da direita também se transferiu para as redes sociais, principal bússola desse campo político. Pelo Twitter, bolsonaristas e dissidentes têm trocado farpas a cada nova crise, mostrando que influenciadores que antes saíam em coro começaram a desafinar.
Diariamente, o humor na "twittosfera" é medido pela startup Arquimedes, que classifica o conteúdo das publicações e fornece dados para o mercado financeiro e empresas. Na coleta de menções e retuítes que contêm as palavras-chave de temas como a CPI da Lava-Toga e a saída de Jair Bolsonaro do PSL, a empresa tem identificado subgrupos dentro da própria direita.
Um marco inédito dessa divisão ocorreu há um mês, no dia 16 de setembro, quando o bolsonarismo rachou por causa da ação dos filhos do presidente para barrar a comissão parlamentar de inquérito (CPI) que investigaria o "ativismo judicial" de integrantes de tribunais superiores. Das 40 mil menções colhidas sobre o tema, 43% eram favoráveis à CPI e 23%, contrárias – o restante, composto pela oposição e por indecisos.
– Ficou bastante evidente que essa divisão tem relação com a questão ideológica, do conservadorismo e do olavismo (uma referência a Olavo de Carvalho, guru do presidente e de seus principais seguidores) – diz Pedro Bruzzi, fundador da Arquimedes.
Nas redes, a ala “unha e carne” com Bolsonaro tem sido chamada pelo grupo convertido de “vaporwear” – estética que mescla cenários e cores neons nascida em subgênero da música eletrônica que foi apropriada pela nova direita, ilustrando frases e memes. Na reportagem publicada na revista Crusoé e assinada pelo jornalista Felipe Moura Brasil, o segmento foi criticado no texto que teve o título "Blogueiros de crachá".
– Virou uma subserviência que nem todo mundo está disposto a fazer – resume o cientista político Celso Rocha de Barros.
Felipe de Moura Brasil acessou grupos de WhatsApp para mostrar como empresários, blogueiros e funcionários públicos alinhados ao presidente passaram a atuar de maneira organizada, promovendo linchamentos e limando reputações. Entre as suas lideranças, estão o assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Felipe Martins, e Allan dos Santos, do canal Terça Livre – que, na terça-feira (15), disse que vê "o povo querendo um novo AI-5".
– Esse movimento apaixonado está fazendo com que possamos entender a extensão do campo da direita, para começarmos a fazer distinções. Me parece que, para isso, esse racha vai servir – conclui Glauco Peres da Silva, cientista político da USP.
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Reunidas no guarda-chuva anti-PT, correntes que formaram a base de apoio que levou Bolsonaro à Presidência hoje expõem discursos antagônicos.
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De acordo com analistas, o racha no partido do presidente tem raízes na disputa pelo controle da legenda e dos R$ 110 milhões de fundo partidário.
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Alçados ao poder na esteira da eleição do presidente da República, ao menos outros sete nomes surgem como expoentes do eleitorado.
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Cinco grupos mais bem definidos orbitam, hoje, o campo político. Apesar de demonstrarem disparidade em algumas agendas, há pontos de confluência.