
Entre março e abril de 2020, antes que toda a população soubesse o que era permanecer em quarentena, moradores de uma localidade do interior de Farroupilha já eram obrigados a enfrentar algo muito parecido, mas com ainda mais rigidez.
Na época, cerca de 300 pessoas moravam em Vila Jansen, uma comunidade do 1º Distrito, distante 15 quilômetros do centro da cidade, com acesso pela RS-453 e localizada no meio do caminho para Nova Roma do Sul.
De forma repentina, transporte público e aulas foram canceladas, ruas passaram a ser higienizadas com cloro e pessoas precisaram se fechar em casa. Entre elas, a família Ferri, um grupo de quatro pessoas que viveu a obrigatoriedade de se isolar como ninguém.

Há pouco mais de cinco anos, no dia 18 de março, Terezinha Ferri, 72 anos, recebia a ligação da Secretaria Municipal de Saúde para informar que seu filho, na época com 37 anos e vindo de Londres uma semana antes, tinha testado positivo para a covid-19, o primeiro do município.
— Ele pousou em Porto Alegre depois de ficar uns dias em São Paulo. Em Farroupilha, quis passar no hospital antes para fazer o teste porque já se sentia mal. Quando veio o resultado, era 22h30min e a televisão já anunciava que no outro dia já não tinha mais ônibus e fechou a vila. Foi como um rastilho de pólvora que se espalhou. As pessoas vinham na frente da nossa casa ameaçar ele, passamos muito medo.

A família Ferri permaneceu por 14 dias na casa de três quartos, sala e cozinha, cada um em um cômodo. As refeições do filho eram entregues na porta e as compras, trazidas pelo mercado, eram buscadas na esquina.
— Eu chorava, rezava, via televisão e ficava no celular. Todos tinham medo de nós. Os vizinhos não abriam nem a janela, o mercado deixava as compras na esquina. Na saída da Vila duas viaturas não deixavam ninguém entrar ou sair — lembra Terezinha.
Técnica em enfermagem aposentada, Terezinha monitorou temperatura e pressão do filho durante os dias. Ele se curou, não transmitiu a doença para os familiares e retornou para Londres.
Passados cinco anos do isolamento, Terezinha segue, de forma voluntária, trocando curativos e vacinando os vizinhos quando chamada. A retomada à normalidade, no entanto não foi tão fácil:
— Depois que se abriu a vila fui na cidade comprar um microondas. Quando fiz o cadastro na loja e viram que eu era da Jansen me pediram para ficar longe. A gente era muito mal atendido.

“Não se via uma viva alma na rua”
A frase acima é da professora Roberta Bono, que fechou a Escola Estadual de Ensino Médio (EEEM) Júlio Mangoni após o decreto assinado pelo então prefeito Pedro Pedrozo, no dia 19 de março. O documento obrigou o fechamento de bares e estabelecimentos com aglomeração de pessoas. Apenas o mercado e o posto de gasolina no centro da vila permaneceram abertos.
— Era uma cidade fantasma, o vírus estava aqui. Se a farmácia trouxesse remédios, precisávamos ir buscar lá no asfalto. A sensação que eu tinha era de morte, que ninguém iria sobreviver. Chegava em casa e era aquela coisa toda de lavar embalagens e tapete para que o vírus não entrasse em casa — conta Roberta.

Criticado por moradores, que julgaram a medida como um “remédio muito amargo", o ex-prefeito Pedrozo entendeu na época que era o que precisava ser feito. Passados cinco anos, a medida ainda divide opiniões. Um comerciante, que não quis se identificar, diz que precisou trabalhar por uma década para pagar pelos 15 dias parados.
— Uma coisa é ter opinião sobre algo, outra é ter responsabilidade sobre a vida. A doença estava chegando aqui, precisávamos tomar uma decisão e acredito que tenha sido a melhor que poderíamos ter. Era o início da pandemia e o menino chegou infectado. Víamos gente morrendo na Europa, em especial na Itália. Eu tenho o discernimento de que fiz o que precisava ser feito — diz Pedrozo.
Naquele ano, 36 pessoas testaram positivo para a covid-19 em Vila Jansen. Entre 2020 e 2024, o total foi de 65 infectados. A Secretaria de Saúde não sabe precisar quantos dos 226 óbitos de Farroupilha foram de moradores da localidade.