
Medo e falta de amparo do poder público. Esses são os sentimentos que mais reverberaram em grande parte das professoras da rede municipal de Caxias do Sul após o ataque a facadas contra uma colega na Escola João de Zorzi na tarde desta terça-feira (1º). As aulas foram suspensas nesta quarta-feira (2), mas o receio de voltar às salas de aula nesta quinta-feira (3) é palpável.
Durante a sessão da Câmara de Vereadores, a secretária municipal de Educação, Marta Fattori, anunciou aumento da vigilância nas escolas após o ataque, mas para a categoria, é preciso mais que isso.
Com muitas faixas e gritos de indignação, os professores, liderados pela presidente do Sindiserv, Silvana Piroli, se reuniram em frente à prefeitura para relatar as dificuldades enfrentadas no cotidiano das escolas da cidade. Depois, seguiram em caminhada até a sede da Secretaria de Educação (Smed), na Rua Rua Borges de Medeiros. No local, anunciaram uma reunião da Comissão de Diretores da rede municipal de Caxias do Sul com o prefeito Adiló Didomenico, ainda na tarde desta quarta-feira (2), para cobrarem medidas imediatas diante de situações de violência nas instituições de ensino.
Receio do "efeito cascata" entre os alunos

Professora há 18 anos, Adriana Ruas atualmente atua na EMEF Padre Antônio Vieira e diz que o sentimento que mais cresce dentro da categoria é a falta de amparo do poder público e as limitações quanto a atuação dos professores nas salas.
— A gente está atrelado a uma legislação maior, que é o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), que muitas coisas não nos deixam atuar da melhor forma, o que causa muitos entraves dentro da comunidade escolar. Então como somente os adolescentes e as crianças estão protegidas, não existe uma proteção daquele que é agredido. É esse sentimento, o sentimento de refém de uma situação de que se não houver mudanças maiores na legislação, não vai melhorar dentro das escolas — destacou.
A educadora também salientou a necessidade de mais apoio psicológico para os profissionais da educação e que o poder público atue de outra forma em casos de violência escolar.
— Principalmente a gente tem que ter um apoio emocional, psicológico e uma organização diferenciada na hora de encaminhar esses casos de violência escolar. Eles precisam ser encarados de uma forma diferenciada pelo poder público — comentou.
Sobre a volta das aulas nesta quinta-feira (3), a professora demonstrou receio em que a atitude dos adolescentes suspeitos do ataque espelhem outros alunos.
— Essa geração que está vindo tem acesso a muitas informações, eles sabem que eles não são punidos, que o poder da escola é limitado, e aí fica de novo, a insegurança. Será que não vão se espelhar com essa adolescente que já foi liberada? Esse outro adolescente que vai ser recolhido, mas que vai ficar somente 90 dias lá preso, será que não teremos um espelhamento com os nossos alunos? Estamos refém dessa situação e preocupadas se isso não vai virar um efeito cascata — salientou Ruas.
"Professora esfaqueada, comunidade ferida"

Durante o ato em frente à prefeitura, a professora Renata De Geroni, que trabalha na EMEF Presidente Tancredo de Almeida Neves, estava colando no chão frases como "Somos pais e mães e queremos voltar para casa", "Professor não é descartável", "Professora esfaqueada, comunidade ferida" e reforçou o sentimento da colega Adriana.
— A sensação é que a gente vive relacionamentos abusivos dentro das salas de aula. A gente não sai de casa querendo propor nada além de respeito, uma comunicação não violenta, tentando cultivar valores de solidariedade entre eles e entre nós. No geral, a gente precisa lidar todos os dias com muitos palavrões e a dificuldade das famílias virem para as escolas — declarou.
Trabalhando há mais de 15 anos como professora, Renata também comentou que é preciso debater a integração das famílias com a comunidade escolar.
— A discussão é que a comunidade, a família dessas crianças e desses adolescentes precisam construir junto com a escola esses valores que eu acabei de citar. Afinal, a gente cuida durante quatro horas e meia dos filhos de toda a sociedade e tenta trazer o melhor. Ninguém sai de casa querendo fazer o contrário — evidenciou.

Renata ainda diz que se fosse realizado mais investimentos na área da educação, nem seria necessário guardas nas escolas.
— Acho que isso é resultado de políticas públicas que são cortadas, tanto da assistência social quanto da escola. Se nós tivéssemos uma estrutura melhor, com apoio aos professores e não na diminuição do nosso papel na sociedade, talvez nós não precisássemos da Guarda Municipal na escola e talvez nós não chegássemos em situações extremas — opinou a professora.
"Estamos trabalhando por amor a profissão"

A educadora Simone Baldin da Costa atua em duas escolas municipais, Papa João XXIII e Basílio Tcacenco, e também reclamou da falta de interesse dos pais em acompanharem os filhos nas escolas.
— Nós estamos muito à mercê da população, quando a gente repreende o filho por um motivo ou outro, eles não vai à escola. Esse que é o principal motivo, a família não trabalha junto com a escola, com exceção de alguns casos. É lamentável essa situação, é muito triste porque pode acontecer com qualquer um de nós e isso já chegou ao extremo — desabafou Simone.
Costa reforçou a necessidade de mais direitos e valorização da categoria.
— As autoridades deveriam fazer leis não só para eles, mas para nós, os direitos que tínhamos estão acabando a cada ano que passa. Estamos trabalhando por amor mesmo. Eu fico imaginando, eu não sou mãe, mas e se eu tivesse uma criança, porque depois eu fiquei sabendo que ela tem um filho pequeno (a professora atacada), como é que ela vai cuidar desse jeito, tanto a parte psicológica como a física, quem que vai dar suporte para ela? Eu acho que eu nem teria mais coragem de voltar para uma sala de aula — revelou Simone.