
Beatificado pela Igreja Católica em 28 de outubro de 2017, em Caxias do Sul, pelo milagre atribuído à cura de Juvelino Cara, um homem acometido por uma trombose em todo o intestino delgado, em 1997, o padre João Schiavo já é considerado santo pela comunidade onde trilhou seu caminho religioso. No entanto, o processo de canonização depende ainda da comprovação de um segundo milagre.
Primeiro beato da Diocese de Caxias do Sul, Schiavo fundou instituições como o Seminário Josefino de Fazenda Souza, o Abrigo de Menores São José, em Caxias, o Abrigo de Menores, em Pelotas e Rio Grande e o Colégio Nossa Senhora Mãe dos Homens, em Araranguá (SC). Também foi fundador, diretor e professor do Colégio Santa Maria Goretti, que nasceu em Fazenda Souza e hoje está no bairro Madureira.
Conforme a irmã Enedina Smiderle, 79 anos, murialdina e vice-postuladora da causa do beato, o caminho de canonização dele segue os trâmites previstos pela Cúria Romana, que é o de, após ser considerado beato, acolher a um novo milagre sem argumento ou comprovação médica. No entanto, até o momento não há nenhum caso em investigação.
— Por enquanto, para poder introduzir um processo para a canonização, é necessário outro milagre. E esse, por enquanto, não apareceu. Existem, sim, muitas graças alcançadas. Mas não apareceu nenhum fato que fosse considerado milagre, pois quando é uma cura que se dá há muito tempo, não é considerado para esse caso — explica a irmã.

A Igreja Católica estabelece critérios rigorosos para a validação de milagres, incluindo exames médicos, análise de especialistas e aprovação do Vaticano. Irmã Enedina explica que, para ser considerado milagre, a condição da pessoa deve ser gravíssima, sem cura - a cura acontece imediatamente pela oração. A religiosa relata que fiéis e devotos seguem rezando e relatando graças alcançadas, na esperança de que um novo caso possa atender aos requisitos exigidos pelo processo canônico.
— Não vamos perder a esperança. Tem gente que vem aqui todos os dias e relata cura. Para nós, ele era santo ainda antes de morrer — afirma.
"Para nós foi um milagre"
Dentre as muitas graças atribuídas ao beato João Schiavo – e que são relatadas publicamente na página da Associação dos Amigos do Padre João Schiavo na internet – está a história de Orlando Dall’Alba, 87.
A esposa de Orlando, Gilse Lúcia Mattana Dall’Alba, 83, lembra com emoção os momentos difíceis que o marido, com quem é casada há 60 anos, enfrentou em 2023, após contrair uma bactéria que rapidamente tomou conta de todos os órgãos, inclusive o coração, paralisando-os. Dall’Alba ficou internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), onde permaneceu 19 dias intubado e quatro em coma.
Como Dall’Alba sempre foi muito devoto do beato João Schiavo, por ter sido aluno dele no seminário, com fé e esperança, Gilse levou o santinho do beato com a relíquia e colocou-o no aparelho de intubação. Diariamente, ela o visitava e rezava implorando ajuda e intercessão do beato.

Em uma terça-feira, rezando o terço com a filha Viviane, Gilse afirma que o marido, que até então não falava devido à gravidade da situação em que se encontrava, falou a frase "terça-feira, mistérios dolorosos". Além disso, ela lembra que Dall’Alba falou do primeiro ao quinto mistério do rosário (paixão de Jesus, flagelação no pilar, coroação de espinhos, carregamento da cruz e crucificação), balbuciando com o tubo na boca.
— Para nós, o padre João Schiavo é um santo. E essa foi a prova que eu tive. Foi uma graça, mas para nós foi um milagre — afirma Gilse.
Ainda criança, Dall’Alba conheceu o padre João Schiavo. O beato foi seu diretor espiritual no seminário em Fazenda Souza. Desde aquela época, lembra que sempre dizia para sua família "este padre vai ser santo!":
— Eu estava sempre ao lado dele para ajudá-lo em qualquer serviço. Era uma pessoa que falava pouco, mas gostava muito de ouvir, e eu sempre o admirei desde pequeno. Ele era fantástico, extraordinário. Para mim, o João Schiavo sempre foi santo.
Memorial destaca legado do religioso
Enquanto o reconhecimento oficial da santidade do padre João Schiavo aguarda a comprovação de um segundo milagre, sua memória e legado continuam vivos.
Inaugurado em 2008 e restaurado em 2017, o Memorial João Schiavo, junto à Congregação das Irmãs Murialdinas, em Fazenda Souza, eterniza e preserva a história de vida do beato. Neste espaço, fiéis encontram vários objetos de uso pessoal, além de roupas, escritos e fotos e documentos do processo de sua beatificação.
— São imagens de toda a sua vida, desde a infância, até o trabalho dele no apostolado, a missão que ele desenvolveu com os josefinos de Murialdo e depois com as irmãs muriadinas. Foi uma vida simples, mas fervorosa, cheia de fé, com muita confiança em Deus. Sempre atencioso às pessoas, o padre João Schiavo não deixava ninguém sem uma palavra de fé — destaca a irmã Enedina.
O espaço é aberto ao público.
Quem é o beato padre João Schiavo
- João Schiavo nasceu em 8 de julho de 1903, em Vicenza, Itália. Era filho de Luiz e Rosa e tinha oito irmãos. Desde criança desejava ser padre.
- Em 1917, entrou na Congregação dos Josefinos de Murialdo.
- Fez noviciado em Volvera e, em 1919, começou a estudar filosofia e teologia. Em 10 de julho de 1927, foi ordenado padre.
- Em 1931, realizando seu desejo de ser missionário, partiu para o Brasil, chegando em Jaguarão no dia 5 de setembro. Em 25 de novembro, transferiu-se para a comunidade de Ana Rech, em Caxias do Sul, e começou a trabalhar no Colégio Murialdo, onde se dedicada à formação de candidatos para a Congregação dos Josefinos, além de ser professor e diretor da Escola Normal.
- Em 1935, ele se mudou para Galópolis, onde dirigiu uma escola e uma paróquia.
- Dois anos depois, voltou a Ana Rech, onde assumiu a direção do Colégio Murialdo e a coordenação dos padres josefinos.
- Em 1941, fundou o Seminário Josefino de Fazenda Souza, sendo o primeiro diretor. Ainda em Fazenda Souza, em 1954, iniciou o primeiro grupo das Irmãs Murialdinas de São José no Brasil.
- A partir de 1956, Schiavo passou a morar no Seminário Josefino de Fazenda Souza e a se dedicar à formação das Irmãs Murialdinas de São José. Na comunidade, também fundou a Escola Santa Maria Goretti das Irmãs Murialdinas, onde atuou como diretor e professor.
- Em 20 de novembro de 1966, foi internado com complicações no fígado causadas por uma hepatite.
- Morreu às 9h30min de 27 de janeiro de 1967, aos 63 anos, já com fama de santo.
- Desde sua morte, a sepultura de Schiavo, atualmente no interior de uma capela que leva o seu nome, é local de orações e peregrinações.
Processo de beatificação do diácono gaúcho João Luiz Pozzobon
No início de março, avançou, no Vaticano, mais uma etapa do processo de beatificação de João Luiz Pozzobon, gaúcho que trabalhou ativamente na Campanha da Mãe Peregrina, que até hoje promove a evangelização católica ao levar a imagem da Mãe, Rainha e Vencedora Três Vezes Admirável de Schoenstatt à residência de famílias. Ao longo de 35 anos, ele percorreu a pé cerca de 140 mil quilômetros realizando esse trabalho, que alcança hoje quase cem países.

A Comissão Teológica do Dicastério da Causa dos Santos, analisou o dossiê que detalha a vida e conduta do diácono, dando parecer favorável à continuidade do processo. A análise e aprovação do documento de quase 800 páginas foi feita por consultores teólogos. O documento, chamado de Positio, reuniu testemunhos e evidências sobre as obras feitas por Pozzobon em vida, como evangelização católica e projetos sociais.
Com a decisão de continuidade no processo, o caso será encaminhado agora ao conselho de bispos e cardeais do Vaticano, o primeiro dos próximos quatro passos até uma possível canonização.