
Pelas minhas contas, esta deve ser a quarta crônica tecida a partir de um pé de manacá com o qual passei a conviver após mudar de apartamento. Seus galhos roçam a janela do espaço que transformei em escritório. Assim, a um cronista das banalidades, já foi inevitável falar da arvorezinha por suas flores que mudam de cor, pela brevidade da espetacular floração e até por uma súbita borboleta amarela que certa manhã se deteve em suas folhas. Agora mais essa: meses depois da florada primaveril, eis que brota uma única flor exatamente ao alcance de minha mão!
Apertei os olhos em busca de outras na galharia verde, como a confirmar uma segunda floração. Nada. Era só aquela uma. Fui ao Google pesquisar, lá dizia que o manacá floresce apenas uma vez por ano. E essa vez já havia passado, fui testemunha. Ó flor temporã, como não ver em ti algo extraordinário? Como não buscar algum sentido nesse fenômeno nem tão raro assim — já que existe a palavra temporão para o que é fora do tempo — mas insólito o suficiente para atiçar a imaginação desse cronista dado a devaneios?
Pronto! Foi dada a largada para a costura de imagens e ideias que chamamos de crônica. Conecto, então, a aparição estranha de uma flor fora da ordem temporal a uma declaração do escritor Jorge Amado: “Não sou religioso, mas tenho assistido a muita mágica. A vida é feita de acontecimentos comuns e de milagres”. Sim, a flor bem pode ser um desses pequenos milagres do cotidiano somente perceptível a olhos que subvertam a medida utilitarista de tudo. Ela não serve para nada, logo há de murchar. Mas trouxe espanto e beleza com sua descoberta, e me convidou aos lampejos de percepção que ora organizo.
Então lembro de um vídeo em que o saudosos poeta Ferreira Gullar explicava o brotar da poesia a partir dos espantos. Contou de certa feita em que saiu de casa irritado por problemas a resolver, e quanto mais pensava nisso mais afundava no desgosto de tudo, quando alguém o parou na rua para falar de como o apreciava e à sua poesia. O elogio sincero e inesperado de um anônimo quebrou a cadeia mental sombria que prendia o poeta. Tomado de lúcido espanto, ele, na rua mesmo, começou a construir Traduzir-se, um dos seus poemas mais conhecidos.
Fico aqui a pensar que nem sempre precisamos do acaso como veículo do susto benéfico que nos envolva de poesia, ou dos singelos milagres que nos atenue o peso da realidade. A subversão da ordem deve integrar nosso projeto de ordem, até mesmo para garantir sua manutenção. Um pouco de bagunça, vez em quando, modera a sisudez de nossos controles, sem ameaçá-los. E, para atentar ao calendário, não é por essa via que trafega o Carnaval? Não é ele a festa do caos consentido — e de espaço para o mágico — que desde a antiguidade era um fator de equilíbrio social?
Agora me vem uma crônica de Rubem Braga chamada Os Romanos. O autor se encanta ao ver, num domingo carnavalesco, um grupo de homens de condição humilde mas fantasiados como imponentes guerreiros do antigo império. O cronista exalta as “flores de loucura” que rebentam como imaginações no seio do povo, “a invenção incessante onde se despeja toda a fantasia, toda a tristeza, toda a opressão dos homens”. E louva: “bem-aventurados os gladiadores e Césares e chiquitas e baianas, e que a vida depois lhes seja leve na volta do sonho em que se esbaldam!”.
A propósito, achei linda a passagem da nova fanfarra caxiense Desorkestra Montanhosa, com seu cortejo de fantasias e impulsos de vida, no domingo passado. Desorkestra Montanhosa: pode ter nome mais necessário ao palco de basalto e suor em que atuamos e onde, com facilidade, vamos erguendo couraças de rudeza? Falando por mim, foi bom demais balançar o corpo ao som da banda a passar tocando coisas de amor. E foi por essa “desorquestração” da rotina que pude perceber o milagre da flor temporã do manacá.