O Rapto do Garoto de Ouro, O Mistério do Cinco Estrelas, Um Cadáver Ouve Rádio: quem reconhece esses títulos certamente se lembra do grande escritor Marcos Rey, cujo centenário se comemora neste mês de fevereiro. Marcos Rey (1925–1999) foi escritor, roteirista e publicitário, conhecido principalmente pelo gênero infantojuvenil, que o tornou um dos mais populares autores da nostálgica Coleção Vagalume da Editora Ática.
A minha geração, dos nascidos entre os anos 1970 e 1980, a tal Geração X, foi profundamente impactada pela Coleção Vagalume. Sem dúvida, me tornei uma leitora voraz porque dos meus 10 aos 12 anos frequentava quase que diariamente tanto biblioteca da escola quanto a biblioteca pública municipal. Ambas contavam em seu acervo com a coleção Vagalume completa. Meus livros favoritos eram os de Marcos Rey. Digamos que, naquela época, os escritores da Vagalume eram nossos youtubers e influencers. Eles é que abriam as janelas para outros mundos, outros cenários, outras vidas, outras emoções além do que a gente vivia no pátio da escola e em nossas casas, mas de uma forma positiva.
A vida escolar da gente era dividida entre as aulas, as brincadeiras e lanches no pátio, as conversas nos intervalos, vôlei ou futebol na quadra e as visitas à biblioteca. Entre as estantes repletas de livros, as bibliotecárias e as professoras costumavam fazer uma espécie de “curadoria”, ou seja, nos recomendavam que novidades havia, conferiam nossas fichas para sugerir outros títulos de que pudéssemos gostar. Não preciso dissertar aqui sobre os benefícios da leitura, mas me parece óbvio que momentos de silêncio e de introspecção mergulhado nas páginas de um livro, deixando a imaginação transformar palavras em sons e imagens, só pode ser algo extremamente positivo para alguém que está se desenvolvendo emocional e intelectualmente.
Duas décadas depois, a coleção Vagalume restou lá na estante pegando poeira porque nossas crianças e adolescentes, em sua maioria, nem colocavam mais o pé na biblioteca na hora do recreio. Em vez de escanear os livros disponíveis, desperdiçavam seu tempo precioso vidrados na tela de um celular, assistindo em sequência toda sorte de bobagem num reels, num tiktok, entre dancinhas, pegadinhas, memes, games viciantes e um nonsense infinito.
Teoricamente, a internet deveria ampliar horizontes, mas sem a devida curadoria de adultos responsáveis, nossos garotos de ouro foram sequestrados por youtubers tóxicos e influencers fúteis que impunham tendências consumistas, agendas ideológicas discutíveis e uma visão de mundo completamente distorcida. O que deveria estimular o conhecimento, a criatividade e a imaginação, virou uma prisão da economia da atenção, e um suprimento contínuo de dopamina vazia, muitas vezes causando ansiedade e depressão.
Por isso só me resta a comemorar essas duas semanas de celulares proibidos nas escolas. Ao menos em um dos ambientes que frequentam, a gurizada estará livre das amarras das redes sociais. E quem sabe irão redescobrir os livros, Marcos Rey e a coleção Vagalume. Garanto que vão amar.