Por Raquel Recuero, Professora, pesquisadora e membro do Conselho Editorial da RBS
A série Adolescência, da Netflix, trouxe à esfera pública uma discussão fundamental e urgente: o papel das plataformas digitais na disseminação de discursos de ódio e da violência simbólica, bem como na cooptação de adolescentes por movimentos radicais. A produção aborda a chamada “machosfera” digital – redes de influenciadores, microcelebridades, grupos e organizações que promovem discursos misóginos e patriarcais, frequentemente desumanizando as mulheres, tratando-as como objetos, construindo-as como seres manipuladores ou intelectualmente inferiores, e justificando a violência contra elas.
Como jornalistas, precisamos pautar o debate na sociedade como ele deve ser
Esses discursos, muitas vezes disfarçados de humor ou piada – e, em outras ocasiões, cifrados –, circulam em grupos fechados e são repassados em espaços com pouca ou nenhuma vigilância. Esses conteúdos, por vezes, chegam pelo YouTube até mesmo a crianças pequenas. A “brincadeira” começa como uma fantasia de dominação e pode rapidamente evoluir para a legitimação de atos violentos – como retratado na série. São sementes que normalizam o ódio, muitas vezes por meio de desinformação pseudocientífica e ressentimento. Trazem teorias falsas, legitimam frustrações e alimentam uma narrativa de “perseguição aos homens”.
Neste contexto, o papel do jornalismo como mediador da realidade que se impõe é fundamental. É preciso nomear o fenômeno, fazer com que as pessoas o conheçam, chamar a responsabilidade da própria sociedade na naturalização do ódio – e, sobretudo, identificar os casos em que isso ocorre. Como jornalistas, precisamos pautar o debate na sociedade como ele deve ser: qualificado, profundo e educativo. Pois é também do jornalismo a semente da mudança, da mediação da esfera pública, da apresentação da violência de gênero como ela é.
Mas é igualmente papel do jornalismo o exercício da autocrítica também da violência simbólica de gênero: sobre o enquadramento desses casos como “isolados”; sobre a reprodução de estereótipos a respeito de mulheres agredidas; e mesmo, sobre o uso assimétrico da linguagem – como o uso de termos como “jovem” para meninas de 15 anos e “menino” para garotos da mesma idade, o que constrói ideias completamente distintas sobre maturidade e responsabilização.
E é, por fim, também do jornalismo a oportunidade de atuar na mudança social: construir campanhas pela igualdade de gênero, pautar o debate sobre a regulamentação das plataformas, responsabilizá-las por seus algoritmos e conteúdos, e expor – com seriedade e responsabilidade – as violências que se escondem dentro e fora da mira da internet. _